mercredi 7 août 2019



O que fez você iniciar uma busca pelo Buddha real?

Meu interesse surgiu com um projeto que levou-me pela primeira vez aos locais onde o Buddha viveu e ensinou - Shravasti, Kusinagar, Gaya, Vaishali, Rajgir, Boddhgaya. Pela primeira vez, eu tive uma clara idéia do mundo do Buddha. Isto criou um tipo de estrutura dentro da qual eu comecei a ler os textos antigos em Pali. Eu comecei a ver os textos de um ponto de vista diferente. Até então, como muitos Buddhistas, eu tinha uma idéia muito vaga de como a vida do Buddha tinha se desdobrado de fato.

O Cânone Pali é como uma janela para 80 anos da história antiga da Índia, o primeiro texto histórico real. De certa forma este representa o mundo humano, em que os deuses não são significantes e os seres humanos que nele habitam estão se esforçando para controlar seu próprio destino.

Eu também passei a ver o mundo do Buddha em termos de desenvolvimento político e econômico daquela época. Quanto mais eu lia e mais tentava juntar as peças da estória, particularmente entre o despertar e o falecimento do Buddha, passei a tomar ciência das pessoas que apareciam nestes fragmentos de história. E lentamente eu pude reunir uma estória. 



Se todos os detalhes que você descobriu sobre a vida e tempo do Buddha estão no Cânone Pali, como pode não serem bem conhecidos [entre os buddhistas]?

Uma das razões para que a estória do Buddha não é bem conhecida é que os compiladores originais dos textos não estavam interessados nos detalhes [históricos]. Eles apenas tinham interesse em preservar o Dhamma – os Ensinamentos do Buddha. Eles organizaram o Cânone não de acordo com a cronologia mas de acordo com o tamanho dos discursos (suttas).

Desta forma, tem-se os discursos curtos, longos, discursos conectados por assunto, discursos unificados usando-se numerais que os identificam. Ao dividir o Cânone desta forma, eles destruíram desavertidamente qualquer senso de cronologia histórica. É somente em alguns textos que encontra-se uma narrativa sustentável, e uma estória de fato. Mas quando se junta todos os pequenos fragmentos de história, extraídos da grande massa de textos, descobre-se que os pequenos fragmentos não são arbitrários – não estão ali apenas para decoração – mas constituem um todo coerente.

Todos estes fragmentos fazem sentido perante aos outros, mesmo os personagens históricos menores são retratados de forma consistente. Parece que estes foram enterrados no Cânone Pali - que tem aproximadamente cinco ou seis mil páginas quando traduzido - como peças de um quebra-cabeças. Coloque-as junto cuidadosamente e você terá uma imagem. Não totalmente completa, mas completa o bastante.



E qual é a imagem que se obtém?

A imagem padrão que as pessoas têm é de um príncipe que cresce num palácio, renuncia a tudo e se torna um Buddha, que passa a andar aqui e acolá dando maravilhosos ensinamentos, com discípulos monásticos o seguindo aonde fosse. Ele ensina, ensina e um dia ele se deita e falece.

Eles não pensam muito sobre o Despertar, mas após este o Buddha tinha uma tarefa: estabelecer seus Ensinamentos e sua Sangha, a comunidade. Ele é relatado dizer isto em várias ocasições. Estas tarefas constituiam sua missão de vida. Para realizá-la, ele não poderia apenas encaminhar-se com seus discípulos monásticos para algum canto nos Himalayas. Ele tinha de ser capaz de encontrar situações nas quais ele teria acesso suficiente à recursos materiais, e nas quais ele teria garantia de segurança. Os únticos locais nos quais isto se encontraria seriam as cidades emergentes da época: Rajgir (Rajagaha), Shravasti (Savatthi) e em menor escala, Vaishali (Vesali). Ele também teve de lidar com um mundo bastante conflituoso, problemático, violento e cruel com reis e monarquias recém-emergidos e exércitos crescentes.


Sabemos a partir dos textos que Buddha viveu até uma idade bastante avançada – tendo falecido ao 80 anos de idade. E também sabemos que sua idade quando deu-se o Despertar era de 35 ou 36 anos. Isto signfica que por 45 anos ele estava ativamente envolvido no ensinar. E seus ensinamentos não se restringiram à um punhado de monges e monjas vivendo em monastérios mas eram oferecidos à indivíduos de todos os níveis da sociedade, do topo à base, em um período da história Indiana em que havia uma transformação de pequenas repúblicas que dominaram as planícies do Ganges para a emergência da primeira monarquia que deu as bases para a unificação posterior da Índia sob Chandragupta Maurya, cerca de 100 anos mais tarde.

Outra coisa que o Buddha esteve continuamente engajado ao longo de sua vida foi o cuidado que tinha com sua própria comunidade em Sakiya. Ás vezes se diz que após ter deixado sua família, o Buddha teria abandonado suas responsabilidades perante sua família e clã e apenas seguiu em frente a pé e se tornou um monge. Isto não é completamente verdade.

Após seu Despertar, o Buddha voltou à Kapilavastu, e reconciliou-se com sua família, e alguns de seus mais importantes discípulos eram de fato seus familiares: seu primo Devadatta, que posteriormente tentou derrubar o próprio Buddha; seu filho, Rahula, que foi ordenado quando um jovem menino; sua madrasta, Mahapajapati, a primeira monja (bhikkhuni); seu primo Ananda, que memorizou todos os ensinamentos; outro primo Anuruddha que era um discípulo próximo e presente na ocasião do falecimento do Buddha; e um terceiro primo, Mahanama, irmão de Anuruddha e Nanda, que sucedera o Buddha como o cabeça do clã dos Sakiyas quando Suddhodana, o pai de Buddha, morreu. Então um dos aspectos da renúncia do Buddha, quando ele deixa o clã Sakiya aos 29 anos, é essencialmente o renunciar do seu papel como futuro líder do povo Sakiya.



Mas era realmente Sakiya um reino?

Sakiya era uma das repúblicas antigas originais da Índia. Não era muito grande, com algumas centenas de quilômetros quadrados no máximo. Na época do nascimento de Gotama, já tinha deixado de ser uma república independente governada por um conselho de anciãos e tornara-se uma provícia do reino de Kosala que tinha como capital Shravasti (Savatthi). Era uma comunidade, governada por representantes das famílias dominantes, com uma delas como a chefe em termos de título. Quando Gotama nasceu, seu pai Suddhodana era o chefe do conselho que governava os assuntos internos de Sakiya, mas eles eram todos vassalos do rei da cidade de Kosambi.


Isto significa que o Buddha alcançou bem mais poder político que seu pai?

De certo modo, sim. Ele andava entre círculos políticos bastante poderosos. Ele tinha o suporte de algumas das figuras políticas mais poderosas de seu tempo: o Rei Bimbisara em Rajgir (Rajagaha) e o Rei Prasenajit (Pasenadi) em Shravasti (Savatthi). Ele deve ter sido um bom, muito bom organizador, poderoso líder de homens e mulheres, alguém com clara visão do que ele iria fazer e estava por fazer.

Não se trata de alguém que apenas sentava-se, meditava e dava palestras ocasionalmente. Ele estava profundamente implicado em seu mundo, não um renunciante, descolado do mundo como Mahavira (mestre do Jainismo, contemporãneo ao Buddha).



Como Buddha ganhou o suporte de poderosos reis de seu tempo?

A razão pela qual os rei apoiavam o Buddha – não creio ter sido necessariamente por terem um claro entendimento de sua filosofia – era que eles viam nele um tipo de gênio, uma figura que causava inspiração, alguém com bastante carisma – um visionário, seria como o chamaríamos nos dias de hoje – e eles queriam se associar a tal indivíduo.

Mas também era um período de enormes mudanças: as primeiras cidades da Índia estavam apenas emergindo e os antigos modos de vida que os Brâmanes e aqueles que seguiam os Vedas representavam, essencialmente um estilo de vida agrário, estava mudando principalmente devido o desenvolvimento econômico. Havia naquele momento excedente suficiente por toda a imensamente fértil produção na área do Ganges. E a produção excedente não somente criou uma classe mercantil – bastante rica, incluindo banqueiros – mas também resultou em chefes de estado com riqueza o suficiente para estabelecer exércitos permanentes e possibilitou que jovens homens e mulheres deixassem seus lares para sobreviver de oferendas, em diversas buscas religiosas, filosóficas e de outras motivações e ideais. Havia um movimento em direção à uma futuro incerto. Eles teriam visto suas próprias vilas e cidades emergentes como o início de uma nova ordem social, de certa forma ainda superadas pelo poder dos reinos Persas à Oeste. Então penso que tais reis estivessem patrocinando tais exércitos e comunidades monásticas pois eles tinham aspirações civilizadoras.

E é claro, por fim, cem anos após o falecimento do Buddha isto de fato aconteceu: o império Mauryan emergiu. O primeiro rei deste, Chandragupta Maurya era devoto ao Jainismo, e o famoso Ashoka o Grande, seu neto, um devoto do Buddhismo – eles estavam claramente seguindo, como o foi, um movimento no qual o Jainismo e o Buddhismo eram vistos como alternativas à religião Brâmane, e havia constante embate entre as diferentes tendências.



Na época do Buddha já existia o conflito com o Bramanismo?

Não, este começou após a época de Ashoka o Grande. Durante a vida do Buddha, não existiam tais campos claramente definidos, eles não haviam de fato emergido. Claramente, o Buddha era bastante crítico do pensamento Brâmane. Ele era crítico do sistema social que este legitimava, suas metáforas e idéias religiosas que ele rejeitou de forma bastante direta. Ele não tinha compromisso algum para com nenhuma idéia similar a de “Deus” [como os Brâmanes professavam] – que ele completamente tirou de cena. Ele era bastante cético sobre qualquer tipo de alma eterna [elemento único de seu Dhamma]. E quando se olha para algumas das idéias principais do Buddha, elas são claramente estruturadas em oposição à ortodoxia dos Upanishads ou Vedanta. Acho que ele viu sua refutação da ideologia vigente (mainstream) de seu tempo como parte integral de sua tentativa de se criar uma nova ordem, um novo tipo de mundo, como o foi.


Nos textos antigos há alguma descrição física do Buddha?

Não. A única passagem que encontrei que tem uma descrição física dele apenas diz que ele não era diferente de ninguém. Ele teria sido razoavelmente anônimo, como qualquer outro monge Buddhista.

A imagem que se tem do Buddha com seu penteado bastante diferente, longos lóbulos das orelhas e etc, trata-se de uma imagem surgida bastante tempo depois, muito embora seja pré-figurada no Cânone Pali pois deve ter havido durante a época do Buddha uma lenda na literatura Brâmane que falava de um Mahapurusha – um grande homem – que viria em certo ponto da história e teria 32 marcas físicas no corpo, e há duas referências no Cânone Pali em que um sacerdote Brâmane ouve dizer que um Buddha havia aparecido no mundo e vai até este para confirmar que de fato ele tinha estas 32 marcas, que ele então verifica e identifica cada uma. Claramente esta é uma parte lendária do Cânone.

Então as imagens do Buddha não se referem à sua aparência física mas sim ao fato de que algumas pessoas acreditam que ele era um Mahapurusha que deveria então ter tais traços distintos.



Você diz que o Buddha estava em exílio no fim de sua vida?

Em Rajgir (Rajagaha), [no fim da vida do Buddha] o rei não era mais Bimbisara, mas sim Ajatasattu, que não somente derrubara seu pai, mas havia planejado com seu mestre, o monge Devadatta, derrubar o Buddha. Parece que em Vaishali (Vesali) o Buddha também havia perdido apoio. Durante o último retiro das chuvas em Vesali, ele não é relatado ter se instalado onde normalmente ficava, que era uma casa com telhado em gablete numa vasta floresta, mas sim teria se instalado em um pequena vila fora dos muros da cidade sozinho e é relatado instruir seus discípulos monásticos que fossem encontrar abrigo na cidade para seu próprio suporte.

Agora, isto é estranho – por que ele teria feito isto?

Uma possível razão para isto seria que ele havia sito recentemente denunciado em público por um homem chamado Sunakkatha, que fora monge Buddhista e após largar o manto, deixando a Sangha, foi até o parlamento de Vaishali e disse “O contemplativo Siddharta Gautama é uma farsa”. Então, provavelmente o Buddha perdeu apoio em Vaishali, e em Shravasti igualmente, sua terra natal estava sendo atacada, o povo de Magadha estava tratando-o apenas como caixa de ressonância para seus próximos conflitos.

O que se vê de fato é que a perda de prestígio do Buddha corresponde essencialmente à perda de prestígio de seus principais patronos. Durante os últimos nove ou dez meses de sua vida, o Buddha é relatado estar constantemente em movimento, o que novamente sugere a hipótese do exílio.



Você também concluiria que o Buddha pode ter sido deliberadamente envenenado?

Não faltavam inimigos ao Buddha. A localidade de Pava, onde ele teve a sua última refeição, era uma das duas principais cidades de Malla, a província Kosalan vizinha à Sakiya. Karayana, o general do exército Kosalan que arruinou o domínio Sakiya, veio de Malla, possívelmente exatamente da cidade de Pava. Tal cidade era também o local onde Mahavira, o asceta fundador do Jainismo é dito ter morrido alguns anos antes, e quando o Buddha ali chegou já havia uma estupa em homenagem ao seu principal rival.

O texto apenas diz que Buddha fora convidado para uma refeição juntamente com seus monges atendentes na casa de um homem chamado C’unda, o ferreiro. C’unda preparou uma refeição chamada "sukaramadhava", ou “porco macio” (segundo algumas fontes um prato de cogumelos e outra um curry/ensopado de carne suína). No momento em que tal refeição foi oferecida ao Buddha, parece que o Buddha suspeitou que algo estava errado com a comida. “Sirva este prato para mim” ele disse ao anfitrião, “e os demais pratos aos outros monges”. Quando a refeição terminou, ele diz ao anfitrião “Agora, enterre qualquer resto deste prato em uma cova”. E então ele foi “tomado uma doença terrível se abateu sobre ele, com diarréia sangrenta e dores terríveis como se estivesse a ponto de morrer. Porém, o Abençoado suportou tudo com atenção plena e plena consciência, sem se queixar.” Sua única reação foi dizer à Ananda: “Vamos para Kusinara”, que naquelas circunstâncias soariam como “Vamos embora deste lugar”.



Por que você acha que ele comeu o prato se sabia que o faria doente?

Faz todo o sentido para mim – ele ocasionou a sua própria morte de forma a garantir que seu ensinamento sobreviveria.

Por que eles matariam um velho homem que já estava morrendo? Não faz sentido certamente. Sabemos que o Buddha estava bem, bastante doente. Qual o ponto de se envenenar um homem de 80 anos de idade que já estaria provavelmente bastante mal? Não soa razoável.

Por que o Buddha diria, “Dê-me este prato, e não dê a ninguém mais?” não acho que tal prato fora oferecido intencionalmente ao Buddha, mas particularmente ao monge Ananda, seu primo, que era a pessoa que guardava em sua memória tudo o que viria a existir. Se Ananda fosse morto naquele momento, o Buddhismo seria morto também.

Por isso acho que Ananda era o alvo. Este é de certa forma uma nova forma de se ler o texto. Mas uma vez que se coloca os incidentes em uma ordem cronológica, é difícil não chegar à mesma conclusão.



Ele não poderia ter enterrado o prato sem ter ingerido?

Talvez ele não sabia ao certo, mas ele não queria se arriscar. É verdade, pode-se explicar de outra forma, mas tudo que teríamos para nos basear seriam estas poucas linhas dos textos, não são muitas palavras sobre o assunto, nunca saberemos.


Você diz que houve um conflito por poder após o falecimento do Buddha?

Bem, felizmente, o Cânone não termina com o falecimento do Buddha. Ele termina com o primeiro Concílio, ocorrido nove meses após o ocorrido. E descreve claramente um conflito por poder: um embate entre Ananda, o primo de Buddha e um monge ancião chamado Mahakassapa, que se tornou monge após ter sido anteriormente um sacerdote Brâmane. Ele alega ter recebido uma certa transmissão direta do Buddha. Ele não estava junto ao Buddha quando Ele falece mas aparece em cena com um número de monges uma semana após, logo antes da pira funerária ter sido acendida. O ancião Mahakassapa presta suas homenagens ao Buddha, a pira é acendida, e o conflito por poder se inicia. Mahakassapa não considera Ananda iluminado (um arahant), e desta forma desqualificando-o de qualquer liderança na comunidade. Mahakassapa alega ser ele mesmo plenamente iluminado e que ele seria o sucessor do Buddha, mesmo tendo o Buddha explícitamente declarado que não tinha nenhum sucessor [senão seu Dhamma].

Ironicamente, a comunidade Buddhista agora descrevia Mahakassapa como o pai da Sangha. Pai em latin é Papa, ou seja. exatamente o que Buddha não queria aconteceu meses após a seu falecimento. Mahakassapa então organizou o primeiro Concílio em Rajgir (Rajagaha). Ele basicamente tomou conta.

E há dois suttas no Cânone Pali em que Mahakassapa é bastante desdenhoso, quase abusivo, quando se direcionando à Ananda. Ele se refere à este chamando-o de apenas um menino: “Você não sabe seu lugar, menino.” E Ananda o responde “Mas estes não são cabelos grisalhos?” Isto é bastante estranho – por que tais passagens estão ali, por que não foram retiradas? Há várias pequenas passagens, bastante detalhadas que nos falam sobre o conflito por poder antes do primeiro Concílio. 



Foi a tomada do poder por Mahakassapa algo negativo para o Buddhismo?

Mahakassapa toma o poder em um momento de grande incerteza. Uma guerra estava prestes a começar. De certo modo, se não tivesse surgido uma figura como aquela, um homem forte ou autoridade patriarcal, então talvez o Buddhismo não tivesse sobrevivido. Acho que deve ser reconhecido igualmente – necessita-se que pessoas como estas tomem o controle, e façam o dever de casa. Ananda talvez seria muito gentil, ele teria preferido um consenso, teria preferido fazer as coisas num modo mais relatável.


Ter descoberto esta estória reduziu sua admiração pelo Buddha?

Acho que admiro ao Buddha muito mais agora pois o conheço como pessoa em vez de como figura mítica. Acho que que a admiração que tinha pelo Buddha até começar este trabalho era mais por uma figura idealizada, mas agora há uma imagem de uma pessoa que pode ser imaginada vívidamente, vivendo neste planeta, neste país, lidando com tais personagens – parentes ambiciosos e reis – e no meio de todos estes embates, estabelece seu Dharma de forma suficientemente hábil de modo que estamos falando sobre isto agora, acho isto extraordinário.


Abaixo uma tradução livre da entrevista com Stephen Batchelor entitulada "Compiladores Ignoraram a Cronologia Histórica", por Sheela Redy da revista Outlook India.

Stephen Batchelor, que se auto-entitula um “Buddhista Agnóstico”, autor do livro “Confissões de um Buddhista Ateu”, conta detalhes da história não revelada da vida e morte de Buddha.

Original disponível em: http://www.outlookindia.com/article.aspx?264459 

mardi 24 juillet 2018


Cinco questões para Roberto Freire

 CULT - Você afirma que todas as autobiografias são pretensiosas e mentirosas. Acredita que a sua (Eu é um outro conseguiu romper com essa tendência?

 Roberto Freire - Olha, sempre fui radical e muito sincero. Mas como acho que esta é a minha última entrevista, vou ser mais radical e mais sincero: fui levado à tentação da mentira. A minha vontade de contar os fatos que aconteceram, tranquilamente recheados de aventuras, era ficção. Passei por essa tentação e isso me deixou mais horrorizado. Quando escrevi três fases da minha vida e vi que as três não estavam reais (eram sinceras, mas estavam ampliadas e modificadas na realidade], fiquei horrorizado e parei. Depois que descobri um jeito de escrever, de falar sabre a minha vida no trabalho por meio das pessoas com as quais eu convivi, daí eu me policiei completamente. Por isso acredito que as autobiografias são pretensiosas e mentirosas, porque mesmo você querendo não mentir, não se envaidecer, não aumentar o real, é impossível. Duvido de que alguém fale de si mesmo sem demonstrar uma humildade excessiva, ou uma pretensão para se valorizar de algum jeito.

 CULT - A sua obra presenciou uma época em que se acreditava nas mudanças políticas por meio da ação educativa e cultural, que fomentariam as consciências. Atualmente, apesar das sucessivas crises do capitalismo, ocorre o agigantamento da chamada indústria de massa. 0 método cultural vive o seu pior impasse?

 R. F. - O fato cria a ideia. A cultura é formada por ações humanas e não por reflexões humanas. Você reflete sobre o que já aconteceu, ou o que espera que aconteça. No passado, fomos praticamente levados a pensar no social por meio de uma teoria que Marx descobriu. Havia uma carência muito grande em cima disso e uma necessidade de combater a exploração do trabalho. Quem se interessava pelo social e pela política via em Marx a grande proposta de transformação. Eu me lembro de que a juventude, se não conhecia Marx diretamente (pela leitura de “O Capital” e de outros livros), era movida por professores ou por ideias gerais que colocavam os conceitos revolucionários como um padrão de melhora e de renovação. Então, era muito fácil você levantar a juventude, por exemplo, por meio das teorias marxistas e da discussão dos problemas que Marx discutia. Eu trabalhava praticamente só com estudantes. Era impressionante como eles tinham uma certa intuição da necessidade de transformação. O mundo estava passando por um período de transição no campo da psicologia familiar e social também. Sempre as ideias marxistas iam à frente e faziam com que a cultura, a arte e a ciência estivessem mais avançadas no campo socialista. O interessante daquela época é que, por exemplo, os grandes arquitetos e escritores eram marxistas: Niemeyer e Jorge Amado, respectivamente. A crítica que eu e a maior parte dos anarquistas defendíamos é que não se faz uma revolução social por meio do burguês, porque Marx propôs que a vanguarda revolucionária, culturalmente falando, fosse da burguesia, que tomava o poder, depois estabelecia a ditadura do proletariado e oferecia o comunismo aos proletários, isso, para os pensadores anarquistas, era um absurdo! Nós só podíamos acreditar em uma transformação socialista se fosse feita pelo povo.

 CULT - Após trabalhar tantos anos com os jovens (terapias, iniciativas culturais e ativismo político), quais as principais diferenças que você observa nos hábitos da juventude que você conheceu e a de hoje?

 R. F. - Eu praticamente trabalhei só com a juventude de classe média desde os anos 1960. A diferença básica é que o jovem hoje quer se divertir, ele acha que precisa de dinheiro. E para existir dinheiro é preciso o capitalismo. Então eu sinto que eles não tem interesse mais, nem falam em revolução social. Eles aceitaram esse pseudo-social de capitalismo como o bastante Os jovens de classe média vão buscar a sua profissão, se preocupam com a situação social do Brasil e de outros países, mas não militam. São poucos os militantes políticos. Espera-se que, se a economia atingir um determinado nível, a classe média vai ficar bem. E a classe média ficando bem, eles acham que o pais está bem. Mas ninguém está preocupado com o operariado. Só os camponeses. Os próprios operários estão preocupados em subir de operário a mestre, de mestre a capataz. Para chegar de capataz a um estudante universitário. Tudo dentro do mesmo regime. Eu fico horrorizado quando os partidos e sindicatos resolvem fazer grandes encontros no Pacaembu, por exemplo. Eles lotam o estádio, mas o que há de diferente? Por que vai tanta gente? A primeira vez eu fui e fiquei escandalizado: convocam, para uma reunião sobre problemas políticos, shows de cantores, sorteio de carros, geladeiras e casas! Ou seja, colocam no coração do próprio proletário a visão capitalista: solução dos problemas econômicos.

 CULT - Há viabilidade para projetos de autogestão no Brasil?

 R. F. - Sim. É uma ideia econômica de produção. Eu conversei muito com os anarquistas espanhóis, que participaram da Guerra Civil da Espanha. Eles me contaram como era. Autogestão é uma forma de organização para o trabalho sem patrão, em que o capital e a administração são do próprio trabalhador. O capital necessário tem de ser do trabalhador. A hierarquia era baseada na alternância: ninguém podia ser o capataz de ninguém. Se você mostrava mais capacidade para esse tipo de ação, era tornado líder naquele campo. As lideranças eram espontâneas e descartáveis. Todo mundo pode ser líder de alguma coisa. Só que as vezes não se apresentam oportunidades para exercer a liderança que se tem naturalmente. Numa fábrica, por exemplo, organizava-se o funcionamento pelos turnos, em que todo mundo praticava tudo. Aí, iam sendo selecionados os mais aptos para estas ou aquelas funções, e se verificava que a liderança tinha de ser alternada, porque cria o vício da liderança. É uma coisa que também se descobriu naquela época. Se você fica muito tempo liderando numa área, passa a ter a ideia de que não é capaz de fazer as outras funções bem. Então, eram períodos de até três meses com as mesmas lideranças. O lucro ara distribuído pelos trabalhadores por eles mesmos.

 CULT - Você consegue citar um exemplo concretizado de autogestão na área cultural que obteve êxito?

R. F. - A organização eu fiz no teatro. Foi fantástico. A PUC SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) me convidou para criar um grupo teatral no Tuca (Teatro da Universidade Católica) em 1965. Fui e disse que aceitaria se eu pudesse aplicar a minha metodologia anarquista. Perguntaram como que era, e expliquei. E fiz o seguinte: convidei um diretor de teatro (Silnei Siqueira), um cenógrafo (José Armando Ferrara] e um músico. Eu seria o diretor geral. Escolhemos a peça (Morte e Vida Severina) com opiniões de todo mundo, depois apresentamos para os estudantes. Eles leram e aprovaram. Montamos a peça e começamos a distribuir funções. O diretor não era exclusivamente o diretor, todos davam palpites na direção. Ele tinha de coordenar as sugestões. A cenografia partiu do princípio de que era uma peça passada no Nordeste, na caatinga. Daí veio um cara, falou: "Vamos ver essa música". E me deram um nome que já conhecia, um tal carioca, Chico Buarque. Ele mandou umas fitas com a música tão precisa, tão maravilhosa... Eram seis músicas. O pessoal ouviu e não quis mais saber de outras. Eu ia convidar o Tom Jobim. Mas foi só a música que não teve palpite de todos, porque a dele (Chico Buarque) foi ótima.

jeudi 28 juin 2018

 É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. 

foto: Janas

“Se você for poeta, verá nitidamente uma nuvem passeando nesta folha de papel. Sem a nuvem, não há chuva. Sem a chuva, as árvores não crescem. Sem as árvores, não se pode produzir este papel. A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não está aqui, a folha de papel também não está. Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel “intersão”.Interser é uma palavra que ainda não se encontra no dicionário, mas se combinarmos o radical inter com o verbo ser, teremos um novo verbo: interser. Se examinarmos esta folha com maior profundidade, poderemos ver nela o sol. Sem o sol, não há floresta. Na verdade, sem o sol não há vida. Sabemos, assim, que o sol também está nesta folha de papel. O papel e o sol intersão.

Se prosseguirmos em nosso exame, veremos o lenhador que cortou a árvore e a levou à fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Sabemos que o lenhador não pode existir sem seu pão de cada dia. Portanto o trigo que se transforma em pão também está nesta folha de papel. O pai e a mãe do lenhador também estão aqui. 

Quando olhamos desta forma, vemos que, sem todas estas coisas, esta folha de papel não teria condições de existir. Ao olharmos ainda mais fundo, vemos também a nós mesmos nesta folha de papel. Isso não é difícil porque, quando observamos algum objeto, ele faz parte de nossa percepção. Sua mente está aqui, assim como a minha. É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. Não conseguimos indicar uma coisa que não esteja nela- o tempo, o espaço, o sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste nesta folha de papel. 

É por isso que para mim a palavra interser deveria ser dicionarizada. Ser é interser. Não podemos simplesmente ser sozinhos e isolados. Temos de interser com tudo o mais. Esta folha de papel é, porque tudo o mais é. Imagine que tentemos devolver um dos elementos à sua origem. Imagine tentarmos devolver a luz do sol ao sol. Você acha que a folha de papel ainda seria possível? Não, sem o sol, nada pode existir. Se devolvermos o lenhador a sua mãe, tampouco teremos a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta apenas de elementos não papel. Se devolvermos estes elementos a suas origens, não haverá papel algum. Sem estes elementos não papel, como  a mente, o lenhador, o sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fina que esta folha seja, tudo o que há no universo está nela”

http://www.thich-nhat-hanh.fr/

vendredi 5 janvier 2018


Rajneesh-Osho e sua Trajetória Circular

Ele se transformou no guru oriental mais popular do mundo na primeira metade dos anos 1980, superando em popularidade os então aclamados líderes de outros Novos Movimentos Religiosos, tais como Swami Prabhupada (líder dos Hare Krishnas), Maharishi Mahesh Yogi (fundador da Meditação Transcendental), Guru Maharaj(da Missão Luz Divina), Reverendo Moon (da Igreja da Unificação) e Sathya Sai Baba. No auge da fama, era comum encontrar livrarias com prateleiras abarrotadas de livros de Rajneesh. Caso deseje ter uma ideia da dimensão da sua produção literária, a edição digital de suas obras, pela Osho International Foundation, reúne 225 publicações, sendo muitas delas registros de suas palestras, quantidade esta que pode ser incompleta, pois alguns autores falam em mais de 500 escritos de sua autoria. O seu sucesso foi tanto que, entre os espiritualistas new agers daquela época, era vergonhoso alguém dizer que não tinha lido um livro de Rajneesh, ou seja, ler e admirar este guru tinha se transformado em uma referencia de espiritualidade, bom como passou a ser um modismo intelectual nos primeiros anos de 1980.
A repercussão da sua celebridade podia ser medida pela enorme disponibilidade de livros, de sua autoria, nas prateleiras das livrarias. Ele foi o autor que mais vendia entre os espiritualistas new agers.  Quando orientalistas e esoteristas se encontravam, o assunto era sempre Rajneesh. A febre também alcançou o Brasil. Lembro-me de uma ocasião em 1983, quando estava em uma livraria de Brasília, aguardando a abertura da Embaixada da Índia para tirar o meu visto, ao lado das prateleiras de livros sobre esoterismo, então uma garota puxou assunto e iniciamos em seguida uma entusiasmada e reciprocamente confiante conversa, até o momento em que lhe disse que não aprovada as ideias de Rajneesh. Então, imediatamente, a expressão do seu rosto mudou e ela passou a transparecer que não acreditava mais no que eu dizia, consequentemente a conversa esfriou. Isto porque Rajneesh tinha alcançado tanto prestígio no circulo espiritual new age daquela época, que se tornou uma referência para se medir o grau de intelectualidade em assuntos espirituais de um buscador, isto é, para ser um new ager instruídoera preciso ter lido e ser um admirador de Rajneesh.
Carreira inicial
Rajneesh-Osho (1931-90) nasceu em uma família de doze filhos na vila de Kuchawada, estado de Madhya Pradesh, Índia, seu nome de nascimento era Mohan Chandra Rajneesh Jain, de modo que ele foi criado fora da dominante tradição hindu. Durante uma parte da sua juventude, ele foi criado pelos avós, um rico casal jainista (religião fundada por Mahavira, contemporâneo de Buda). Desde cedo, Rajneesh relatou ter tido várias experiências de êxtases, finalmente alcançando a “plena iluminação” na idade de vinte e um anos. Ele se formou na Universidade de Saugar e logo em seguida conseguiu um emprego na Raipur Sanskrit College. Suas palestras criaram muitas controvérsias, por exemplo, ele chegou até a atacar heróis nacionais, tal como Mahatma Gandhi, quem ele ridicularizou chamando-o de “chauvinista pervertido e masoquista” (Urban, 2003: 237). Então, Rajneesh se transferiu para outra faculdade no ano seguinte, para a cidade de Jabalpur, onde ele sofreu um período traumático de depressão e anorexia, chegou até a tentar suicídio, depois de algum tempo e recuperado, ele recebeu uma promoção para professor em 1960. Quando a faculdade estava em férias, ele costumava viajar pela Índia palestrando sobre política, sexualidade e espiritualidade. Com o tempo, suas cativantes palestras atraíram um número de comerciantes e empresários ricos. Estes clientes lhe davam doações por consultas sobre desenvolvimento espiritual e sobre vida diária. O rápido crescimento da sua clientela, contudo, foi algo fora do comum, mostrando que ele era um talentoso terapeuta espiritual. Em 1964, um grupo de banqueiros ricos formou um consórcio para sustentar Rajneesh, bem como os retiros de meditação que ele conduzia. Tal como muitos profissionais, cuja clientela cresce rapidamente, ele contratou uma gerente de negócios, ela era Lakshmi, uma mulher da classe alta, bem relacionada politicamente, a qual se tornou a sua primeira secretária particular e chefe administrativa.
A carreira inicial de Rajneesh refletiu bem seus carismáticos atributos individuais de inteligência, de apelo emocional e de habilidade em comunicar-se diretamente com indivíduos, mesmo quando eles eram parte de uma grande plateia. Ele era altamente enfático, com uma fascinante volatilidade emocional, que atraía tanto os buscadores da Índia, como um pequeno, mas crescente número de europeus e de norte americanos. Atendendo a solicitação dos encarregados da universidade onde lecionava, Rajneesh afastou-se do seu cargo na Universidade de Jabalpur em 1966, e começou a usar o nome de Acharya Rajneesh (Mestre Rajneesh) anunciando que, a partir de então, sua ocupação principal seria a de um líder espiritual. Assim, ele passou a se sustentar de palestras, da realização de acampamentos de meditação e, individualmente, de aconselhamentos a influentes clientes indianos. Rajneesh criticava a política e as religiões institucionalizadas e, ao mesmo tempo, defendia uma sexualidade liberada e mais aberta.
Sua popularidade aumentou fora da Índia, o que trouxe muitos ocidentais aos acampamentos de meditação sob sua direção, bem como ao seu apartamento em Mumbai (Bombaim), onde também aconteciam aulas de meditação. Então, ele enviou alguns de seus seguidores ocidentais de volta para casa, a fim de fundarem uma rede internacional de centros de meditação. Em 1971, seu séquito cresceu e diversificou, daí ele alterou, mais uma vez, seu nome para Bhagavan Sri Rajneesh, que significa Reverenciável Rajneesh, o Senhor Supremo.
À medida que o movimento crescia nos anos 1970, uma nova estrutura organizacional surgia. Os seguidores passaram a receber novos nomes, geralmente de reverenciados deuses e deusas hindus, significando seu renascimento espiritual através do voto de renúncia (samnyasa), abrindo-se, cada vez mais, a Bhagavan Sri Rajneesh e renunciando ao seu passado. Ele também pediu aos seus seguidores que usassem uma vestimenta de cor alaranjada, tal como os santos ascetas (samnyasis) da Índia. No entanto, estes novos nomes e a sagrada vestimenta dos ascetas hindus, somados à disciplina sexual e à atitude libertina dos devotos, ofenderam profundamente a população local. Com o tempo, o número de seguidores ocidentais ultrapassou o de seguidores indianos, aumentando assim o auxílio financeiro, o que fez com que, em 1974, ele mudasse a sede de Mumbai para Pune (antiga Puna), ao sul de Mumbai (Goldman, 2004: 122-3).
Rajneeshpuram
Esta nova sede altamente lucrativa, contudo, logo se envolveu em problemas legais e financeiros com o governo da Índia. Então, em 1981, Bhagavan e seus devotos foram forçados a fugir do país “rastreados por alguns milhões de dólares em dívidas, bem como por uma grande quantidade de cobradores de impostos e pela polícia” (Urban, 2003: 237). Anunciando-se como o “messias que a América estava aguardando”, Rajneesh refugiou-se nos EUA. Após uma breve permanência em uma mansão em New Jersey, ele e seu séquito compraram uma fazenda de 64 mil acres na pequena aldeia de Antelope, condado de Wasco, no estado de Oregon, a qual ele batizou com o nome de Rajneeshpuram (cidade de Rajneesh). Rapidamente, a cidade comunitária se transformou em um complexo financeiro notavelmente lucrativo, de modo que Rajneeshpuram acumulou US$ 120 milhões em renda durante os seus quatro anos de existência (Urban, 2003: 237 e Goldman, 2011: 309). Rajneeshpuram transformou-se em uma máquina de fazer dinheiro, lá “os preços se estendiam desde US$ 50 por um dia de introdução à meditação de Rajneesh, até US$ 7.500 por um completo programa de reequilíbrio de três meses” (Urban, 2003: 239). Enquanto isto, o séquito se espalhava pelos EUA, pela Europa, pela Índia, alcançando 25 mil membros iniciados em seu pico, daí transformando-se em um diversificado e internacionalizado complexo de negócios (Urban, 2003: 237-8). De Rajneeshpurampara o mundo, o ‘Rajneeshismo’ se transformou em um modismo internacional entre os espiritualistas na primeira metade dos anos 1980.
Os objetivos dos seguidores, com a construção da cidade comunitária de Rajneeshpuram, eram, nas palavras de Marion Goldman, os seguintes: “Eles esperavam fundir espiritualidade e materialismo enquanto construíam uma comunidade internacional que pudesse servir também como um retiro e um centro luxuoso de peregrinação para samnyasis de todas as partes do mundo, suplantando o ashram anterior de Pune (Puna), Índia” (Goldman, 2011: 309).  Um fato que chamou a atenção em Rajneeshpuram foi a sua capacidade de atrair pessoas de alta escolaridade e de sucesso profissional, portanto era uma comunidade de intelectuais e não de fracassados, tal como em muitas outras comunidades religiosas. Segundo os resultados da minuciosa pesquisa de Marion Goldman, “a maioria dos samnyasis que viviam na cidade comunitária em Oregon, nos anos 1980, relataram que eles tinham diplomas de quatro anos de faculdade. Uma proporção substancial destes samnyasis representavam o melhor e o mais brilhante da geração babyboom, que tinha sobressaído na faculdade e em suas carreiras subsequentes” (Goldman, 2011: 309). Em seu auge, cerca de seis mil devotos (samnyasis) viviam em Rajneeshpuram (Usborne, 1995: 03).
Logo após o início das atividades da comunidade, Rajneesh decidiu manter voto de silêncio por três anos, no entanto ele aparecia diariamente, sempre à tarde, em um passeio com um dos seus 96 Rolls Royces, por um trajeto já pré-estabelecido, acenando para os samnyasis, os quais se alinhavam na lateral da rua, com as mãos juntas em posição de reverência, diante da passagem do guru. Excetos em seus passeios diários nos automóveis de luxo, Rajneesh não era mais visto em público, delegando a liderança administrativa à Ma Amand Sheela, sua secretária particular. Naturalmente, uma comunidade tão extravagante como esta não poderia deixar de causar aborrecimentos aos vizinhos pacatos, o que gerou oposição por toda a redondeza, criando um clima de animosidade. O mais escandaloso evento aconteceu no Outono de 1984, quando Sheelae seus auxiliares recolheram cerca de 3 mil moradores de rua, na maioria homens, trouxeram-nos para a comunidade, transformaram-nos em eleitores, em uma tentativa de controlar os resultados das eleições do condado de Wasco, porém o monitoramento estadual de eleitores e o partido de oposição impediram a concretização do plano (Usborne, 1995: 02 e Goldman, 2011: 309-10).
Logo após o fracasso do plano (1985), Sheela e seus auxiliares próximos fugiram para a Europa. Ela só foi presa em 1990, após extradição para os EUA (Usborne, 1995: 03). Então, assim que a comunidade desintegrou, Rajneesh voltou a falar publicamente acusando Sheela e sua turma de drogar samnyasisdissidentes, de grampo telefônico, de incêndio criminoso, de promover imigração ilegal, de tentativa de assassinato e de desfalque nas contas da comunidade. Ainda mais, em uma revelação chocante, Rajneeshpublicamente afirmou que Sheela ordenou que alguns membros do círculo interno colocassem Salmonella(veneno) em uma dúzia de balcões de salada em restaurantes localizados no condado de Wasco, envenenando pelo menos 750 indivíduos. Este foi um teste para incapacitar um grande número de eleitores anti-Rajneesh no dia da eleição (Usborne, 1995: 02). Já, a cumplicidade de Rajneesh nestes crimes ainda não foi provada, logo sua culpa permanece uma dúvida (Goldman, 2011: 310). Em seguida ao colapso, Rajneeshtambém abandonou Rajneeshpuram e enfrentou uma experiência vergonhosa, pois viajou por mais de vinte países tentado refúgio, mas todos negaram seu visto, inclusive o Brasil, até que, finalmente, o governo da Índia aceitou recebê-lo. Então, ele se re-estabeleceu no antigo ashram de Pune. Chegando lá, uma das primeiras iniciativas que fez foi, mais uma vez, alterar seu nome, desta vez para Osho, nome que manteve até sua morte em 1990. Em Janeiro de 1986, Rajneeshpuram foi colocada à venda, hoje o que funciona lá é o acampamento Young Life Camp, um retiro para jovens de propriedade de uma igreja cristã, algumas construções da época Rajneeshpuram foram aproveitadas, mas com alterações (Welch, 2003).
Uma curiosidade no destino do movimento foi que, mesmo depois dos eventos criminosos nos EUA, inclusive com a prisão de Rajneesh-Osho e da sua secretária, Ma Amand Sheela, a organização continuou bem estabelecida e próspera em Pune, na Índia, onde, após algumas alterações estruturais, ela foi transformada em um retiro, magnificamente belo e luxuoso, que mistura centro espiritual com SPA para ricos, o Osho International Meditation Resort. O historiador da religião Hugh B. Urban analisa assim o destino do movimento: “Talvez o mais surpreendente aspecto do fenômeno Rajneesh não esteja tanto em sua carreira escandalosa na América, mas em sua notável apoteose e em seu renascimento após seu retorno à Índia. Um guru tântrico verdadeiramente global, Rajneesh fez a viagem da Índia à América e de volta à Índia novamente, para, finalmente, alcançar ainda mais sucesso na sua terra natal, em grande parte, por causa de seu status de figura que tinha um numeroso séquito nos EUA e na Europa. Mais incrível ainda foi que, os seus seguidores não foram capazes apenas de racionalizar o escândalo desastroso nos EUA, mas até mesmo de fazer de Rajneesh um mártir heroico, o qual tinha sido injustamente perseguido pelo governo imperialista e opressivo dos EUA” (Urban, 2003: 242). Enfim, por esta curta análise de H. Urban é possível se ter uma ideia do alto grau de fanatismo alcançado pelos seguidores de Rajneesh-Osho, ao ponto de não se incomodarem com os graves eventos criminosos ocorridos anteriormente. Mesmo assim, ele conseguiu renascer das cinzas após os escândalos, portanto é muito curioso notar como Rajneesh-Osho, ao longo da sua carreira, conseguiu atrair tantos seguidores ricos para seu séquito, ele parecia ser um imã de dinheiro.
Marion Goldman, que esteve em Rajneeshpuram e se tornou hoje uma das principais pesquisadoras do Rajneeshismo, explica assim a sobrevivência e o posterior sucesso do movimento, mesmo após os escândalos nos EUA. “É possível distinguir o progresso no Movimento Osho e sua sobrevivência contínua, embora com uma diluída autoridade central e uma amorfa influência cultural. Primeiro, Rajneesh desprezou Sheela, atribuindo todos os crimes e dificuldades a ela e aos seus auxiliares. Segundo, o movimento desocupou o local da maior controvérsia, dispersou seus membros para outros centros e reivindicou suas sedes originais longe da cidade comunitária abandonada em Oregon. Terceiro, Rajneesh renomeou a si mesmo, o movimento, e as suas sedes. Quarto, ele criou um conselho para cuidar das obrigações organizacionais. Quinto, ele e o círculo interno, que governou após sua morte, redefiniu o movimento como um movimento de meditação e de desenvolvimento pessoal instruído pela filosofia de Osho, Finalmente, após a morte de Osho, o movimento reenfatizou e reforçou seu foco na difusão organizacional, inclusive espiritualidade” (Goldman, 2004: 134). Da explicação acima é possível perceber que, mais do um sincero instrutor espiritual, Rajneesh-Osho foi um esperto ‘empresário espiritual’, cuja esperteza foi passada para seus sucessores, daí o contínuo sucesso financeiro do movimento até hoje.
Os ensinamentos
Muitos samnyasis (renunciantes), seguidores de Rajneesh-Osho, o caracterizaram como uma mistura de louco, salvador, charlatão e santo (Goldman, 2004: 122). Estritamente falando, em si mesmos, os ensinamentos de Rajneesh-Osho não eram originais, melhor dizendo, eles foram extraídos de uma diversificada mistura de diferentes fontes, sobretudo, TantraYoga, Zen, Sufismo, Budismo, Taoismo, Hassidismo, bem como de pensadores, de instrutores e de autores mais recentes: Nietzsche, Gurdjieff, Crowley, Krishnamurti e de ideias dos movimentos Contracultura e New Age. Hugh B. Urban resumiu assim: “Mais do que promover uma religião no sentido convencional, Rajneesh ensinou uma marca de espiritualidade radicalmente iconoclasta, uma filosofia antinomiana e um anarquismo moral. Como uma religião ‘sem religião’, ou anti religião, a religião dele era o caminho além da moralidade convencional, além do bem e do mal, e fundada na explícita rejeição de todas as tradições, de todos os valores e de todas as doutrinas. ‘Moralidade é uma moeda falsa, ela engana as pessoas’ ele advertia. ‘Um homem de real compreensão não é nem bom nem mal. Ele transcende ambos’. Para Rajneesh, a causa de todos os nossos sofrimentos é a deformante socialização ou o processo de programação de indivíduos pelas instituições culturais, tais como família, escola, religião e governo. Todas as metanarrativas e teorias predominantes sobre o universo são apenas ficções, criações imaginárias usadas por aqueles no poder para dominar as massas. A liberdade só pode ser alcançada através da desprogramação de tais narrativas, libertando-se das limitantes estruturas do passado. As pessoas devem ser desprogramadas e deshipnotizadas. ‘Vocês são programados pela família, pela educação e pelas instituições. Sua mente é como um quadro negro, no qual as regras estão escritas. Bhagavan escreve novas regras sobre o quadro negro. Ele diz a vocês uma coisa e em seguida o oposto que também é verdadeiro. Ele escreve e escreve no quadro negro da sua mente, até que ela se torne um quadro branco. Então, vocês não terão mais nenhum vestígio de programação nas suas mentes’” (Urban, 2003: 239). Ele tinha um estilo jocoso de criticar: “Vocês certamente sofreram uma lavagem cerebral, eu uso uma máquina de secar. E o que há de errado em sofrer uma lavagem cerebral? Lave seu cérebro todos os dias, mantenha-o limpo. Ele é apenas uma lavanderia religiosa de atualização” (Urban, 2003: 329).
Em razão de palestrar quase sempre e de escrever tanto, e tão afoitamente, os seus ensinamentos são flagrantemente contraditórios. Tanto que, até ele mesmo reconhecia e procurou se justificar: “Por que eu digo contradições? Eu não estou ensinando filosofia aqui. O filósofo precisa ser muito consistente, perfeito, lógico e racional. Eu não sou um filósofo. Eu não estou aqui dando para vocês um dogma consistente ao qual vocês podem se prender. Meu inteiro esforço é dar a vocês uma ‘não-mente’” (Urban, 2003: 241). Sendo assim, torna-se difícil sistematizar os ensinamentos de Rajneesh-Osho, ou seja, escrever um compêndio ou um manual sistematizado de suas doutrinas parece ser uma tarefa complicada. Ou como David G. Bromley e Susan J. Palmer explicam: “Rajneesh desenvolveu um complexo conjunto de ideias que desafia a elaboração de um simples resumo, porque Rajneesh acreditava na prioridade da experiência sobre as ideias e que o mundo incorpora inconsistência e um inter-relacionamento dinâmico de opostos” (Bromley, 2007: 140).
Enfim, ao mesmo tempo em que a sua sortida mistura de doutrinas religiosas atraiu muitos admiradores e seguidores, outros intérpretes a consideram uma deformação de todas estas doutrinas. Enquanto que, para os céticos, o Movimento Rajneesh-Osho foi mais um surto de religiosidade do século XX, com uma nova formatação e um novo arranjo, para atrair os crédulos, em uma época e para um público escolarizado que, cada vez mais, tornava-se secular, portanto na contra mão do sentido das sociedades com melhor qualidade de vida e dos indivíduos mais esclarecidos respectivamente.
O guru do sexo
Embora não fosse tudo, o elemento sexual era uma ênfase nas ideias e nas práticas do movimento, daí que Rajneesh-Osho ficou conhecido como o “guru do sexo” (Urban, 2003: 235s). Para o historiador H. Urban, quanto ao Tantra, “a versão de Rajneesh-Osho é a transformação em mercadoria e a comercialização da tradição” (Urban, 2003: 236). A prática da sua ‘meditação dinâmica’ é entendida, por muitos de fora do movimento, como uma orgia sexual.
Para este pesquisador, Rajneesh-Osho “foi um dos primeiros indianos a viajar para a América e importar sua própria marca de ‘neo-tantrismo’, vendida para a cultura consumidora americana no final do século XX”. O que ele fez foi uma “transformação do sexo em mercadoria”, bem como uma “espécie de transformação do êxtase em mercadoria”. Para este historiador das religiões, ele foi “o mais notável guru do sexo do século XX”. E mais, “Rajneesh oferecia tudo que os ocidentais imaginavam que o Tantra fosse: um culto de amor livre que prometia a iluminação, uma excitante comunidade radical. Rajneesh encaminhou-se confortavelmente para o papel de Messias do Tantra. Em grande parte por causa de Rajneesh, o Tantra ressurgiu como um culto New Age nos anos 1970 e 1980” (Urban, 2003: 237).
Rajneesh definia e interpretada o Tantra assim: “O Tantra é a suprema ‘não religião’ ou ‘antireligião’, uma prática espiritual que não exige ritual e moralidade rigorosa, mas, ao invés disto, livra o indivíduo de tais repressões. O Tantra é liberdade – liberdade de todos os construtos mentais, de todos os jogos mentais, o Tantra é libertação. O Tantra não é religião. Religião é um jogo da mente. O Tantra descarta todas as disciplinas” (Urban, 2003: 239-40). Rajneesh dizia: “O Tantra é rebelde. Eu não o chamo de revolucionário, porque ele não existe nada de político nele. É uma rebelião individual. É uma escapulida individual das estruturas e da escravidão. O futuro é esperançoso. O Tantra se tornará cada vez mais importante…” (Urban, 2003: 240).
No mais forte contraste com as instituições sociais estabelecidas, o Tantra não nega a vida e o corpo, melhor dizendo, ele é a suprema afirmação da paixão, fisicamente, do prazer. Ele é a suprema religião ‘apenas faça-o’, que celebra a vida em toda sua transitoriedade e contingência: o Tantra aceita tudo, vive tudo. Rajneesh-Osho declarava: “Isto é o que o Tantra diz: o Caminho Majestoso – comporte-se como um rei, não como um soldado. O Tantra celebra a natureza humana em suas dimensões mais defeituosas, fracas e mesmo aparentemente perversas. Se você é ganancioso, seja ganancioso, não se importe com a ganância”. E mais; “a aceitação tântrica é total, ela não separa você. Todas as religiões do mundo, exceto o Tantra, têm criado personalidades divididas, têm criado esquizofrenia. Elas dizem que o bem tem que ser alcançado e o mal negado, e que o demônio tem de ser negado e deus aceito. O Tantra diz que uma transformação é possível. A transformação vem quando você aceita o seu ser total. O ódio é absorvido, a cobiça é absorvida” (Urban, 2003: 240).
Sobretudo, o Tantra gira em torno do sexo, um poder que é, ao mesmo tempo, a mais intensa força na natureza humana e também a mais severamente distorcida pela sociedade ocidental. Porque o Ocidente Cristão Tradicional suprimiu a sexualidade, Rajneesh-Osho argumentava: “é a sexualidade que deve ser libertada se os discípulos modernos desejarem atualizar completamente seu eu interno. A repressão cristã tem criado muitos bloqueios no homem, onde a energia se tornou encolhida dentro de si mesma, se tornou estagnada, não é mais atuante. A sociedade é contra o sexo, ela criou um bloqueio…”.
Em oposição à atitude ocidental que nega a vida, o Tantra é o caminho que aceita tudo, sobretudo, o impulso sexual. Como o poder mais forte na natureza humana, o sexo torna-se a energia espiritual mais forte quando é plenamente integrada e absorvida. De modo que, muitas práticas ensinadas por Rajneesh-Osho envolviam sexo grupal. “Terapias intensivas”, tal como ele as chamava, as quais eram efetuadas para realizar uma catarse seguida pela transformação da consciência. Assim, o supremo objetivo das práticas tântricas é precisamente alcançar esta plena autoaceitação, amar a nós mesmos intensamente e completamente, com todos os nossos pecados, vícios, cobiças e desejos sexuais, e reconhecer que nós já somos perfeitos. Nas palavras de Rajneesh-Osho: “Esta é a coisa mais fundamental no Tantra, isto é, você já é perfeito… A perfeição não tem de ser alcançada. Ela simplesmente precisa ser percebida, uma vez que ela já está aí, O Tantra oferece a você a iluminação aqui e agora, sem prazo, sem adiamento…” (Urban, 2003: 240-41).
Antes de terminar este estudo, é preciso esclarecer que esta interpretação do Tantra de Rajneesh-Osho é extremamente controvertida. Nem todos os intérpretes admitem que o Tantra seja tão focado no sexo. Ademais, o Tantrismo é uma tradição multiplamente dividida em distintas correntes (hindu, budista, jainista, lamaísta, Shingon, etc.), a qual, mesmo dentro de cada uma destas correntes, desdobra-se em inúmeras subdivisões, portanto a versão deste extravagante e manipulador guru tântrico acima é mais uma dentre tantas muitas outras.
Obras consultadas
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BRUCE, Steve. Religion in the Modern World: From Cathedrals to Cults. Oxford: Oxford University Press, 1996, p. 178s.
CHATTOPADHYAYA, Sudhakar. Reflections on the Tantras. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1978.
EINOO, Shingo (ed.). Genesis and Development of Tantrism. Tokyo: University of Tokyo, 2009.
GOLDMAN, Marion. When Leaders Dissolve: Considering Controversy and Stagnation in the Osho Rajneesh Movement em Controversial New Religions. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2004, p. 119-37.
_________________ Cultural Capital, Social Networks and Collective Violence at Rajneeshpuram em Violence and New Religious Movements. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2011, p. 307-23.
KAVIRAJ, Gopinath. Aspects of Indian Thought. Burdwan: The University of Burdwan, 1966, p. 175-240.
KING, Richard and Jeremy Carrette. Selling Spirituality: The Silent Takeover of Religion. London/New York: Routledge, 2004, p. 153-8.
NAGARAJ, Anil Kumar. Osho, Insights on Sex em Indian Journal of Psychiatry, vol. 55, issue 06, January 2013, p. 268s.
OSHO. Tantra: The Supreme Understanding. Osho International Foundation, 1st edition 1975; online edition 2010a
______ Tantric Transformation. Osho International Foundation, 1st edition 1977; online edition 2010b.
———– Christianity: The Deadliest Poison and Zen, The Antidote to all Poisons. Osho International Foundation. 1st edition 1977; online edition 2010c.
SALIBA, John A. Psychology and the New Religious Movements em The Oxford Handbook of New Religious Movements. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2004, p. 323-32.
SANDERSON, Alexis. The Saiva Age em Genesis and Development of Tantrism, Shingo Einoo (ed.). Tokyo: Unversity of Tokyo, 2009, p. 41-349.
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WELCH, Bob. Rajneeshees’ Ranch Still a Spiritual Mecca. Eugene (Oregon): The Register Guard, May 29, 2003, p. D-1.
Websites:
Osho International Institute: www.osho.com
Osho International Meditation Resort: http://www.osho.com/Main.cfm?Area=medresort
Osho talks: http://osho.tv/

https://observadorcriticodasreligioes.wordpress.com/2014/01/01/rajneesh-osho-e-sua-trajetoria-circular/

mardi 20 janvier 2015

A base do budismo é a realidade do aqui é do agora


Esther Sternberg*: Eu gostaria de lhe perguntar se um terapeuta que meditasse poderia desenvolver mais ainda a compaixão e ser assim mais apto a ajudar seus pacientes? E a compaixão, trás em si, a capacidade de melhor gerar o estresse do dia a dia?

Dalai Lama: Para ambas as questões a resposta é positiva. Alguns amigos meus, acham que a ética, ou a moral, deve se basear numa espécie de fé religiosa, mas a leitura budista sobre essa questão é a mesma do humanismo. A base do budismo é a realidade do aqui é do agora, a existência em si; a condição humana e tudo aquilo que isso envolve. No budismo elementos como gentiliza, compaixão, o cuidado e a atenção para como o próximo, são importantes.
Nos somos mamíferos que necessitamos de cuidado desde que nascemos. Com outros mamíferos isso também ocorre de uma certa maneira. Esse conjunto de cuidados que nos são dirigidos desde que chegamos no mundo tendemos a classificar como: carinho. E sem isso como poderíamos viver? A religião não tem nada a ver com esse processo. Nós temos esse potencial que alimentamos ao longo de nossa vida. Enquanto animais inteligentes nós podemos compreender que todo esse cuidado, que toda essa compaixão, é útil; e nós temos a capacidade de desenvolve-las ainda mais.
Existe também no mundo animal, em geral, esse cuidado com a prole desde o nascimento. Mas a partir do momento em que o filhote esta pronto esse carinho se dissipa. Enquanto seres humanos, tendemos a cada vez mais aumentar esse elo, esse carinho, entre pais e filhos.
E por ter esse caráter humanista que eu acho que o budismo é mais aceitos por aqueles que não acreditam num deus criador de todas as coisas. Pois a base do budismo é realmente a realidade do aqui e do agora. E uma grande parte do discurso budista visa tratar dos problemas ligados ao fato de simplesmente existirmos. E do ponto de vista budista a ética ou a moral não tem necessidade em se apoiar numa fé religiosa, seja ela qual for. E a partir dai fica mais fácil a introdução da meditação budista pela medicina, por exemplo.

L'esprit est son propre médecin - Jon Kabat-Zinn et Richard Davidson

* Diretora do centro de pesquisa neuro imunológico do NIH.

Tradução: Ricardo Castro

mercredi 18 juin 2014

Seis coisas que aprendi com minha avó vanguardista


Minha avó é vanguardista. Dona Regina foi estilista da tropicália, teve uma galeria de arte e hoje em dia continua na ativa como marchande. Cresci frequentando sua casa, sempre com pessoas e assuntos legais. Tive a sorte de ter sido tratado como criança/adolescente e ao mesmo tempo receber boas doses de sabedoria vanguardista. Nunca escrevi um texto na internet, mas acho que alguns de meus aprendizados e minha vó merecem ser compartilhados. Então segue a listinha:
1. Cuidado com o que você cria.
Eu tinha 10 anos de idade e estava no carro imaginando com ela como seria o futuro. Falei que no futuro não existiram mais carros, que as pessoas entrariam em vagões e apenas selecionariam seu destino. Comecei a elaborar a idéia e adicionei que os vagões iriam identificar as pessoas e se você fosse um bandido, ou algo assim, o vagão não andaria e você seria preso. Minha vó detestou minha ideia, ficou brava e disse:
— Isso é fascismo, você não pode controlar as pessoas assim.
Depois ela pegou mais leve e disse que a ideia seria boa se não tivesse um sistema de identificação. Na hora foi difícil entender, mas foi um bom choque. Até hoje eu abomino qualquer uso de tecnologia para identificação ou controle de pessoas.
2. O estranho muda a estética do que é belo.
Estávamos assistindo televisão quando passou uma reportagem sobre o São Paulo Fashion Week. Olhei aquelas roupas e falei que tudo era entranho e feio. Ela discordou, disse que elas eram bem boas, ainda mais por serem estranhas. Depois explicou que só assim elas poderiam mudar a estética do que é belo. Hoje em dia é assim, bato o olho em qualquer desenho, se tenho um estranhamento, é porque é bom. 
3. A mensagem justifica os meios.
Muita gente não gosta da ideia do David Bowie tocar no Caldeirão do Huck, mas minha vó seria radicalmente a favor. Quando tivemos essa discussão adolescente ela usou argumentos matadores. Por mais que você não concorde ou não dê valor a um meio de comunicação, você não pode recusá-lo. A mídia de massa é algo muito valioso, aproveite esse tipo de oportunidade para alcançar pessoas, sejam elas quem forem. Se um dia eu for empresário do David Bowie e só a TV Gazeta quiser entrevistá-lo, usarei esses argumentos para convencê-lo a ir ao programa “Mulheres”.
4. Cada geração com sua questão.
Quem me deu esse toque foi um amigo da minha vó, mas toda a situação foi gerada em sua casa. Tínhamos assistido o filme “Aguirre, a Cólera de Deus” (um filme alemão muito doido) e comecei mais um discurso adolescente de que, em minha geração, não existiam mais atores radicais como o protagonista Klaus Kisnki. O amigo da minha avó apontou para um quadrinho do Leonilson, que tem uma vela bordada com um “sim” em uma ponta e um “não” na outra, e disse: -Não existe mais um muro de Berlin assim como existia para Kiski. Agora o “Sim” e o “Não” participam da mesma idéia. Para mim isso foi um divisor de águas, nunca mais senti culpa de não ser radical, de não ter um posicionamento político claro e das minhas opiniões serem uma mistura de diversas coisas. Praticamente saí da adolescência.
5. Jantar chique é com comida e música brasileira.
Isso eu aprendi frequentando, se você for receber amigos em casa e quiser fazer algo bem charmoso, não faça quiche, não faça macarrão, não faça nada que veio da França. Bom mesmo é cuscuz paulista, canjiquinha com costelinha, moqueca de peixe, ou até mesmo um simples lombo com arroz e feijão. Tudo isso tem que ser acompanhado com música brasileira. O segredo da minha vó está em explorar o que a gente tem de melhor. Dessa maneira o jantar fica charmoso até para o embaixador da Suíça.
6. É preciso desobedecer.
Minha vó pratica a desobediência frequentemente, de diferente maneiras e modalidades. Diz a lenda que ela é assim desde pequena. Se você reparar, tudo o que eu falei até agora tem a ver com isso. Minha personalidade é bem diferente, eu sou certinho e medroso, mas posso dizer que depois de tantos anos sendo cúmplice da minha vó, eu aceito e me sinto apto a desobedecer. Posso dizer também que graças a minha vó posso caminhar para frente, aceitar o novo e evitar tropeços em atrasos.
Manoel Brasil Orlandi 

jeudi 14 novembre 2013

Nada é mais limitado que o prazer e o vício.


Lá onde a vida levanta muros, a inteligência fura uma saída.

Nossa personalidade social é uma criação do pensamento dos outros.

A persistência em mim de uma veleidade antiga em trabalhar, em reparar o tempo perdido, em mudar de vida, ou mais ainda em começar a viver, me dava a ilusão de que eu era sempre jovem.

Agir é bem diferente de falar, ainda que com eloquência, e pensar, ainda que com engenho.

Nos lugares novos, onde as sensações não estão amortecidas pelo hábito, revigoramos, reanimamos uma dor.

Toda ação do espírito é fácil se não está submetida ao real.

Na humanidade, a frequência de virtudes idênticas em todos não é mais maravilhosa que a multiplicidade de defeitos particulares em cada um.

O homem é o ser que não pode sair de si, que só conhece os outros em si mesmo e, dizendo o contrário, mente.

O universo é verdadeiro para todos nós e diferente para cada um.

Cada qual chama de ideias claras aquelas que têm o mesmo grau de confusão que as suas.

Não se cura um sofrimento senão à condição de sofrê-lo plenamente.

Mais tarde se vê as coisas de maneira mais prática, em total conformidade com o resto da sociedade, mas a adolescência é o único tempo no qual se aprende algo.

Um homem de grande talento prestará menos atenção à tolice alheia do que um tolo.

Amamos a partir de um sorriso, um olhar, um ombro. Isto basta; então nas longas horas de esperança ou de tristeza fabricamos uma pessoa, compomos um caráter.

É surpreendente como o ciúme, que passa o tempo a fazer pequenas suposições falsas, tem pouca imaginação quando se trata de descobrir o verdadeiro.

O tempo de que dispomos cada dia é elástico; as paixões que sentimos o dilatam, as que inspiramos o encolhem, e o hábito o preenche.

A recordação de certa imagem não é senão o lamento por certo instante; e as casas, as estradas, as avenidas, são fugitivas, ai, como os anos.

A partir de certa idade, mesmo se evoluções diferentes se cumpram em nós, tanto mais um se torna si mesmo, mais os traços familiares se acentuam.

Tentamos ver a quem se ama, deveríamos tentar não vê-lo, só o esquecimento pode propiciar a extinção do desejo.

A felicidade é salutar para o corpo, mas é o sofrimento que desenvolve as forças do espírito.

Os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos.

A ambição inebria mais do que a glória.

Nada é mais limitado que o prazer e o vício.

Marcel Proust