mardi 24 juillet 2018


Cinco questões para Roberto Freire

 CULT - Você afirma que todas as autobiografias são pretensiosas e mentirosas. Acredita que a sua (Eu é um outro conseguiu romper com essa tendência?

 Roberto Freire - Olha, sempre fui radical e muito sincero. Mas como acho que esta é a minha última entrevista, vou ser mais radical e mais sincero: fui levado à tentação da mentira. A minha vontade de contar os fatos que aconteceram, tranquilamente recheados de aventuras, era ficção. Passei por essa tentação e isso me deixou mais horrorizado. Quando escrevi três fases da minha vida e vi que as três não estavam reais (eram sinceras, mas estavam ampliadas e modificadas na realidade], fiquei horrorizado e parei. Depois que descobri um jeito de escrever, de falar sabre a minha vida no trabalho por meio das pessoas com as quais eu convivi, daí eu me policiei completamente. Por isso acredito que as autobiografias são pretensiosas e mentirosas, porque mesmo você querendo não mentir, não se envaidecer, não aumentar o real, é impossível. Duvido de que alguém fale de si mesmo sem demonstrar uma humildade excessiva, ou uma pretensão para se valorizar de algum jeito.

 CULT - A sua obra presenciou uma época em que se acreditava nas mudanças políticas por meio da ação educativa e cultural, que fomentariam as consciências. Atualmente, apesar das sucessivas crises do capitalismo, ocorre o agigantamento da chamada indústria de massa. 0 método cultural vive o seu pior impasse?

 R. F. - O fato cria a ideia. A cultura é formada por ações humanas e não por reflexões humanas. Você reflete sobre o que já aconteceu, ou o que espera que aconteça. No passado, fomos praticamente levados a pensar no social por meio de uma teoria que Marx descobriu. Havia uma carência muito grande em cima disso e uma necessidade de combater a exploração do trabalho. Quem se interessava pelo social e pela política via em Marx a grande proposta de transformação. Eu me lembro de que a juventude, se não conhecia Marx diretamente (pela leitura de “O Capital” e de outros livros), era movida por professores ou por ideias gerais que colocavam os conceitos revolucionários como um padrão de melhora e de renovação. Então, era muito fácil você levantar a juventude, por exemplo, por meio das teorias marxistas e da discussão dos problemas que Marx discutia. Eu trabalhava praticamente só com estudantes. Era impressionante como eles tinham uma certa intuição da necessidade de transformação. O mundo estava passando por um período de transição no campo da psicologia familiar e social também. Sempre as ideias marxistas iam à frente e faziam com que a cultura, a arte e a ciência estivessem mais avançadas no campo socialista. O interessante daquela época é que, por exemplo, os grandes arquitetos e escritores eram marxistas: Niemeyer e Jorge Amado, respectivamente. A crítica que eu e a maior parte dos anarquistas defendíamos é que não se faz uma revolução social por meio do burguês, porque Marx propôs que a vanguarda revolucionária, culturalmente falando, fosse da burguesia, que tomava o poder, depois estabelecia a ditadura do proletariado e oferecia o comunismo aos proletários, isso, para os pensadores anarquistas, era um absurdo! Nós só podíamos acreditar em uma transformação socialista se fosse feita pelo povo.

 CULT - Após trabalhar tantos anos com os jovens (terapias, iniciativas culturais e ativismo político), quais as principais diferenças que você observa nos hábitos da juventude que você conheceu e a de hoje?

 R. F. - Eu praticamente trabalhei só com a juventude de classe média desde os anos 1960. A diferença básica é que o jovem hoje quer se divertir, ele acha que precisa de dinheiro. E para existir dinheiro é preciso o capitalismo. Então eu sinto que eles não tem interesse mais, nem falam em revolução social. Eles aceitaram esse pseudo-social de capitalismo como o bastante Os jovens de classe média vão buscar a sua profissão, se preocupam com a situação social do Brasil e de outros países, mas não militam. São poucos os militantes políticos. Espera-se que, se a economia atingir um determinado nível, a classe média vai ficar bem. E a classe média ficando bem, eles acham que o pais está bem. Mas ninguém está preocupado com o operariado. Só os camponeses. Os próprios operários estão preocupados em subir de operário a mestre, de mestre a capataz. Para chegar de capataz a um estudante universitário. Tudo dentro do mesmo regime. Eu fico horrorizado quando os partidos e sindicatos resolvem fazer grandes encontros no Pacaembu, por exemplo. Eles lotam o estádio, mas o que há de diferente? Por que vai tanta gente? A primeira vez eu fui e fiquei escandalizado: convocam, para uma reunião sobre problemas políticos, shows de cantores, sorteio de carros, geladeiras e casas! Ou seja, colocam no coração do próprio proletário a visão capitalista: solução dos problemas econômicos.

 CULT - Há viabilidade para projetos de autogestão no Brasil?

 R. F. - Sim. É uma ideia econômica de produção. Eu conversei muito com os anarquistas espanhóis, que participaram da Guerra Civil da Espanha. Eles me contaram como era. Autogestão é uma forma de organização para o trabalho sem patrão, em que o capital e a administração são do próprio trabalhador. O capital necessário tem de ser do trabalhador. A hierarquia era baseada na alternância: ninguém podia ser o capataz de ninguém. Se você mostrava mais capacidade para esse tipo de ação, era tornado líder naquele campo. As lideranças eram espontâneas e descartáveis. Todo mundo pode ser líder de alguma coisa. Só que as vezes não se apresentam oportunidades para exercer a liderança que se tem naturalmente. Numa fábrica, por exemplo, organizava-se o funcionamento pelos turnos, em que todo mundo praticava tudo. Aí, iam sendo selecionados os mais aptos para estas ou aquelas funções, e se verificava que a liderança tinha de ser alternada, porque cria o vício da liderança. É uma coisa que também se descobriu naquela época. Se você fica muito tempo liderando numa área, passa a ter a ideia de que não é capaz de fazer as outras funções bem. Então, eram períodos de até três meses com as mesmas lideranças. O lucro ara distribuído pelos trabalhadores por eles mesmos.

 CULT - Você consegue citar um exemplo concretizado de autogestão na área cultural que obteve êxito?

R. F. - A organização eu fiz no teatro. Foi fantástico. A PUC SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) me convidou para criar um grupo teatral no Tuca (Teatro da Universidade Católica) em 1965. Fui e disse que aceitaria se eu pudesse aplicar a minha metodologia anarquista. Perguntaram como que era, e expliquei. E fiz o seguinte: convidei um diretor de teatro (Silnei Siqueira), um cenógrafo (José Armando Ferrara] e um músico. Eu seria o diretor geral. Escolhemos a peça (Morte e Vida Severina) com opiniões de todo mundo, depois apresentamos para os estudantes. Eles leram e aprovaram. Montamos a peça e começamos a distribuir funções. O diretor não era exclusivamente o diretor, todos davam palpites na direção. Ele tinha de coordenar as sugestões. A cenografia partiu do princípio de que era uma peça passada no Nordeste, na caatinga. Daí veio um cara, falou: "Vamos ver essa música". E me deram um nome que já conhecia, um tal carioca, Chico Buarque. Ele mandou umas fitas com a música tão precisa, tão maravilhosa... Eram seis músicas. O pessoal ouviu e não quis mais saber de outras. Eu ia convidar o Tom Jobim. Mas foi só a música que não teve palpite de todos, porque a dele (Chico Buarque) foi ótima.

jeudi 28 juin 2018

 É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. 

foto: Janas

“Se você for poeta, verá nitidamente uma nuvem passeando nesta folha de papel. Sem a nuvem, não há chuva. Sem a chuva, as árvores não crescem. Sem as árvores, não se pode produzir este papel. A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não está aqui, a folha de papel também não está. Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel “intersão”.Interser é uma palavra que ainda não se encontra no dicionário, mas se combinarmos o radical inter com o verbo ser, teremos um novo verbo: interser. Se examinarmos esta folha com maior profundidade, poderemos ver nela o sol. Sem o sol, não há floresta. Na verdade, sem o sol não há vida. Sabemos, assim, que o sol também está nesta folha de papel. O papel e o sol intersão.

Se prosseguirmos em nosso exame, veremos o lenhador que cortou a árvore e a levou à fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Sabemos que o lenhador não pode existir sem seu pão de cada dia. Portanto o trigo que se transforma em pão também está nesta folha de papel. O pai e a mãe do lenhador também estão aqui. 

Quando olhamos desta forma, vemos que, sem todas estas coisas, esta folha de papel não teria condições de existir. Ao olharmos ainda mais fundo, vemos também a nós mesmos nesta folha de papel. Isso não é difícil porque, quando observamos algum objeto, ele faz parte de nossa percepção. Sua mente está aqui, assim como a minha. É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. Não conseguimos indicar uma coisa que não esteja nela- o tempo, o espaço, o sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste nesta folha de papel. 

É por isso que para mim a palavra interser deveria ser dicionarizada. Ser é interser. Não podemos simplesmente ser sozinhos e isolados. Temos de interser com tudo o mais. Esta folha de papel é, porque tudo o mais é. Imagine que tentemos devolver um dos elementos à sua origem. Imagine tentarmos devolver a luz do sol ao sol. Você acha que a folha de papel ainda seria possível? Não, sem o sol, nada pode existir. Se devolvermos o lenhador a sua mãe, tampouco teremos a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta apenas de elementos não papel. Se devolvermos estes elementos a suas origens, não haverá papel algum. Sem estes elementos não papel, como  a mente, o lenhador, o sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fina que esta folha seja, tudo o que há no universo está nela”

http://www.thich-nhat-hanh.fr/

vendredi 5 janvier 2018


Rajneesh-Osho e sua Trajetória Circular

Ele se transformou no guru oriental mais popular do mundo na primeira metade dos anos 1980, superando em popularidade os então aclamados líderes de outros Novos Movimentos Religiosos, tais como Swami Prabhupada (líder dos Hare Krishnas), Maharishi Mahesh Yogi (fundador da Meditação Transcendental), Guru Maharaj(da Missão Luz Divina), Reverendo Moon (da Igreja da Unificação) e Sathya Sai Baba. No auge da fama, era comum encontrar livrarias com prateleiras abarrotadas de livros de Rajneesh. Caso deseje ter uma ideia da dimensão da sua produção literária, a edição digital de suas obras, pela Osho International Foundation, reúne 225 publicações, sendo muitas delas registros de suas palestras, quantidade esta que pode ser incompleta, pois alguns autores falam em mais de 500 escritos de sua autoria. O seu sucesso foi tanto que, entre os espiritualistas new agers daquela época, era vergonhoso alguém dizer que não tinha lido um livro de Rajneesh, ou seja, ler e admirar este guru tinha se transformado em uma referencia de espiritualidade, bom como passou a ser um modismo intelectual nos primeiros anos de 1980.
A repercussão da sua celebridade podia ser medida pela enorme disponibilidade de livros, de sua autoria, nas prateleiras das livrarias. Ele foi o autor que mais vendia entre os espiritualistas new agers.  Quando orientalistas e esoteristas se encontravam, o assunto era sempre Rajneesh. A febre também alcançou o Brasil. Lembro-me de uma ocasião em 1983, quando estava em uma livraria de Brasília, aguardando a abertura da Embaixada da Índia para tirar o meu visto, ao lado das prateleiras de livros sobre esoterismo, então uma garota puxou assunto e iniciamos em seguida uma entusiasmada e reciprocamente confiante conversa, até o momento em que lhe disse que não aprovada as ideias de Rajneesh. Então, imediatamente, a expressão do seu rosto mudou e ela passou a transparecer que não acreditava mais no que eu dizia, consequentemente a conversa esfriou. Isto porque Rajneesh tinha alcançado tanto prestígio no circulo espiritual new age daquela época, que se tornou uma referência para se medir o grau de intelectualidade em assuntos espirituais de um buscador, isto é, para ser um new ager instruídoera preciso ter lido e ser um admirador de Rajneesh.
Carreira inicial
Rajneesh-Osho (1931-90) nasceu em uma família de doze filhos na vila de Kuchawada, estado de Madhya Pradesh, Índia, seu nome de nascimento era Mohan Chandra Rajneesh Jain, de modo que ele foi criado fora da dominante tradição hindu. Durante uma parte da sua juventude, ele foi criado pelos avós, um rico casal jainista (religião fundada por Mahavira, contemporâneo de Buda). Desde cedo, Rajneesh relatou ter tido várias experiências de êxtases, finalmente alcançando a “plena iluminação” na idade de vinte e um anos. Ele se formou na Universidade de Saugar e logo em seguida conseguiu um emprego na Raipur Sanskrit College. Suas palestras criaram muitas controvérsias, por exemplo, ele chegou até a atacar heróis nacionais, tal como Mahatma Gandhi, quem ele ridicularizou chamando-o de “chauvinista pervertido e masoquista” (Urban, 2003: 237). Então, Rajneesh se transferiu para outra faculdade no ano seguinte, para a cidade de Jabalpur, onde ele sofreu um período traumático de depressão e anorexia, chegou até a tentar suicídio, depois de algum tempo e recuperado, ele recebeu uma promoção para professor em 1960. Quando a faculdade estava em férias, ele costumava viajar pela Índia palestrando sobre política, sexualidade e espiritualidade. Com o tempo, suas cativantes palestras atraíram um número de comerciantes e empresários ricos. Estes clientes lhe davam doações por consultas sobre desenvolvimento espiritual e sobre vida diária. O rápido crescimento da sua clientela, contudo, foi algo fora do comum, mostrando que ele era um talentoso terapeuta espiritual. Em 1964, um grupo de banqueiros ricos formou um consórcio para sustentar Rajneesh, bem como os retiros de meditação que ele conduzia. Tal como muitos profissionais, cuja clientela cresce rapidamente, ele contratou uma gerente de negócios, ela era Lakshmi, uma mulher da classe alta, bem relacionada politicamente, a qual se tornou a sua primeira secretária particular e chefe administrativa.
A carreira inicial de Rajneesh refletiu bem seus carismáticos atributos individuais de inteligência, de apelo emocional e de habilidade em comunicar-se diretamente com indivíduos, mesmo quando eles eram parte de uma grande plateia. Ele era altamente enfático, com uma fascinante volatilidade emocional, que atraía tanto os buscadores da Índia, como um pequeno, mas crescente número de europeus e de norte americanos. Atendendo a solicitação dos encarregados da universidade onde lecionava, Rajneesh afastou-se do seu cargo na Universidade de Jabalpur em 1966, e começou a usar o nome de Acharya Rajneesh (Mestre Rajneesh) anunciando que, a partir de então, sua ocupação principal seria a de um líder espiritual. Assim, ele passou a se sustentar de palestras, da realização de acampamentos de meditação e, individualmente, de aconselhamentos a influentes clientes indianos. Rajneesh criticava a política e as religiões institucionalizadas e, ao mesmo tempo, defendia uma sexualidade liberada e mais aberta.
Sua popularidade aumentou fora da Índia, o que trouxe muitos ocidentais aos acampamentos de meditação sob sua direção, bem como ao seu apartamento em Mumbai (Bombaim), onde também aconteciam aulas de meditação. Então, ele enviou alguns de seus seguidores ocidentais de volta para casa, a fim de fundarem uma rede internacional de centros de meditação. Em 1971, seu séquito cresceu e diversificou, daí ele alterou, mais uma vez, seu nome para Bhagavan Sri Rajneesh, que significa Reverenciável Rajneesh, o Senhor Supremo.
À medida que o movimento crescia nos anos 1970, uma nova estrutura organizacional surgia. Os seguidores passaram a receber novos nomes, geralmente de reverenciados deuses e deusas hindus, significando seu renascimento espiritual através do voto de renúncia (samnyasa), abrindo-se, cada vez mais, a Bhagavan Sri Rajneesh e renunciando ao seu passado. Ele também pediu aos seus seguidores que usassem uma vestimenta de cor alaranjada, tal como os santos ascetas (samnyasis) da Índia. No entanto, estes novos nomes e a sagrada vestimenta dos ascetas hindus, somados à disciplina sexual e à atitude libertina dos devotos, ofenderam profundamente a população local. Com o tempo, o número de seguidores ocidentais ultrapassou o de seguidores indianos, aumentando assim o auxílio financeiro, o que fez com que, em 1974, ele mudasse a sede de Mumbai para Pune (antiga Puna), ao sul de Mumbai (Goldman, 2004: 122-3).
Rajneeshpuram
Esta nova sede altamente lucrativa, contudo, logo se envolveu em problemas legais e financeiros com o governo da Índia. Então, em 1981, Bhagavan e seus devotos foram forçados a fugir do país “rastreados por alguns milhões de dólares em dívidas, bem como por uma grande quantidade de cobradores de impostos e pela polícia” (Urban, 2003: 237). Anunciando-se como o “messias que a América estava aguardando”, Rajneesh refugiou-se nos EUA. Após uma breve permanência em uma mansão em New Jersey, ele e seu séquito compraram uma fazenda de 64 mil acres na pequena aldeia de Antelope, condado de Wasco, no estado de Oregon, a qual ele batizou com o nome de Rajneeshpuram (cidade de Rajneesh). Rapidamente, a cidade comunitária se transformou em um complexo financeiro notavelmente lucrativo, de modo que Rajneeshpuram acumulou US$ 120 milhões em renda durante os seus quatro anos de existência (Urban, 2003: 237 e Goldman, 2011: 309). Rajneeshpuram transformou-se em uma máquina de fazer dinheiro, lá “os preços se estendiam desde US$ 50 por um dia de introdução à meditação de Rajneesh, até US$ 7.500 por um completo programa de reequilíbrio de três meses” (Urban, 2003: 239). Enquanto isto, o séquito se espalhava pelos EUA, pela Europa, pela Índia, alcançando 25 mil membros iniciados em seu pico, daí transformando-se em um diversificado e internacionalizado complexo de negócios (Urban, 2003: 237-8). De Rajneeshpurampara o mundo, o ‘Rajneeshismo’ se transformou em um modismo internacional entre os espiritualistas na primeira metade dos anos 1980.
Os objetivos dos seguidores, com a construção da cidade comunitária de Rajneeshpuram, eram, nas palavras de Marion Goldman, os seguintes: “Eles esperavam fundir espiritualidade e materialismo enquanto construíam uma comunidade internacional que pudesse servir também como um retiro e um centro luxuoso de peregrinação para samnyasis de todas as partes do mundo, suplantando o ashram anterior de Pune (Puna), Índia” (Goldman, 2011: 309).  Um fato que chamou a atenção em Rajneeshpuram foi a sua capacidade de atrair pessoas de alta escolaridade e de sucesso profissional, portanto era uma comunidade de intelectuais e não de fracassados, tal como em muitas outras comunidades religiosas. Segundo os resultados da minuciosa pesquisa de Marion Goldman, “a maioria dos samnyasis que viviam na cidade comunitária em Oregon, nos anos 1980, relataram que eles tinham diplomas de quatro anos de faculdade. Uma proporção substancial destes samnyasis representavam o melhor e o mais brilhante da geração babyboom, que tinha sobressaído na faculdade e em suas carreiras subsequentes” (Goldman, 2011: 309). Em seu auge, cerca de seis mil devotos (samnyasis) viviam em Rajneeshpuram (Usborne, 1995: 03).
Logo após o início das atividades da comunidade, Rajneesh decidiu manter voto de silêncio por três anos, no entanto ele aparecia diariamente, sempre à tarde, em um passeio com um dos seus 96 Rolls Royces, por um trajeto já pré-estabelecido, acenando para os samnyasis, os quais se alinhavam na lateral da rua, com as mãos juntas em posição de reverência, diante da passagem do guru. Excetos em seus passeios diários nos automóveis de luxo, Rajneesh não era mais visto em público, delegando a liderança administrativa à Ma Amand Sheela, sua secretária particular. Naturalmente, uma comunidade tão extravagante como esta não poderia deixar de causar aborrecimentos aos vizinhos pacatos, o que gerou oposição por toda a redondeza, criando um clima de animosidade. O mais escandaloso evento aconteceu no Outono de 1984, quando Sheelae seus auxiliares recolheram cerca de 3 mil moradores de rua, na maioria homens, trouxeram-nos para a comunidade, transformaram-nos em eleitores, em uma tentativa de controlar os resultados das eleições do condado de Wasco, porém o monitoramento estadual de eleitores e o partido de oposição impediram a concretização do plano (Usborne, 1995: 02 e Goldman, 2011: 309-10).
Logo após o fracasso do plano (1985), Sheela e seus auxiliares próximos fugiram para a Europa. Ela só foi presa em 1990, após extradição para os EUA (Usborne, 1995: 03). Então, assim que a comunidade desintegrou, Rajneesh voltou a falar publicamente acusando Sheela e sua turma de drogar samnyasisdissidentes, de grampo telefônico, de incêndio criminoso, de promover imigração ilegal, de tentativa de assassinato e de desfalque nas contas da comunidade. Ainda mais, em uma revelação chocante, Rajneeshpublicamente afirmou que Sheela ordenou que alguns membros do círculo interno colocassem Salmonella(veneno) em uma dúzia de balcões de salada em restaurantes localizados no condado de Wasco, envenenando pelo menos 750 indivíduos. Este foi um teste para incapacitar um grande número de eleitores anti-Rajneesh no dia da eleição (Usborne, 1995: 02). Já, a cumplicidade de Rajneesh nestes crimes ainda não foi provada, logo sua culpa permanece uma dúvida (Goldman, 2011: 310). Em seguida ao colapso, Rajneeshtambém abandonou Rajneeshpuram e enfrentou uma experiência vergonhosa, pois viajou por mais de vinte países tentado refúgio, mas todos negaram seu visto, inclusive o Brasil, até que, finalmente, o governo da Índia aceitou recebê-lo. Então, ele se re-estabeleceu no antigo ashram de Pune. Chegando lá, uma das primeiras iniciativas que fez foi, mais uma vez, alterar seu nome, desta vez para Osho, nome que manteve até sua morte em 1990. Em Janeiro de 1986, Rajneeshpuram foi colocada à venda, hoje o que funciona lá é o acampamento Young Life Camp, um retiro para jovens de propriedade de uma igreja cristã, algumas construções da época Rajneeshpuram foram aproveitadas, mas com alterações (Welch, 2003).
Uma curiosidade no destino do movimento foi que, mesmo depois dos eventos criminosos nos EUA, inclusive com a prisão de Rajneesh-Osho e da sua secretária, Ma Amand Sheela, a organização continuou bem estabelecida e próspera em Pune, na Índia, onde, após algumas alterações estruturais, ela foi transformada em um retiro, magnificamente belo e luxuoso, que mistura centro espiritual com SPA para ricos, o Osho International Meditation Resort. O historiador da religião Hugh B. Urban analisa assim o destino do movimento: “Talvez o mais surpreendente aspecto do fenômeno Rajneesh não esteja tanto em sua carreira escandalosa na América, mas em sua notável apoteose e em seu renascimento após seu retorno à Índia. Um guru tântrico verdadeiramente global, Rajneesh fez a viagem da Índia à América e de volta à Índia novamente, para, finalmente, alcançar ainda mais sucesso na sua terra natal, em grande parte, por causa de seu status de figura que tinha um numeroso séquito nos EUA e na Europa. Mais incrível ainda foi que, os seus seguidores não foram capazes apenas de racionalizar o escândalo desastroso nos EUA, mas até mesmo de fazer de Rajneesh um mártir heroico, o qual tinha sido injustamente perseguido pelo governo imperialista e opressivo dos EUA” (Urban, 2003: 242). Enfim, por esta curta análise de H. Urban é possível se ter uma ideia do alto grau de fanatismo alcançado pelos seguidores de Rajneesh-Osho, ao ponto de não se incomodarem com os graves eventos criminosos ocorridos anteriormente. Mesmo assim, ele conseguiu renascer das cinzas após os escândalos, portanto é muito curioso notar como Rajneesh-Osho, ao longo da sua carreira, conseguiu atrair tantos seguidores ricos para seu séquito, ele parecia ser um imã de dinheiro.
Marion Goldman, que esteve em Rajneeshpuram e se tornou hoje uma das principais pesquisadoras do Rajneeshismo, explica assim a sobrevivência e o posterior sucesso do movimento, mesmo após os escândalos nos EUA. “É possível distinguir o progresso no Movimento Osho e sua sobrevivência contínua, embora com uma diluída autoridade central e uma amorfa influência cultural. Primeiro, Rajneesh desprezou Sheela, atribuindo todos os crimes e dificuldades a ela e aos seus auxiliares. Segundo, o movimento desocupou o local da maior controvérsia, dispersou seus membros para outros centros e reivindicou suas sedes originais longe da cidade comunitária abandonada em Oregon. Terceiro, Rajneesh renomeou a si mesmo, o movimento, e as suas sedes. Quarto, ele criou um conselho para cuidar das obrigações organizacionais. Quinto, ele e o círculo interno, que governou após sua morte, redefiniu o movimento como um movimento de meditação e de desenvolvimento pessoal instruído pela filosofia de Osho, Finalmente, após a morte de Osho, o movimento reenfatizou e reforçou seu foco na difusão organizacional, inclusive espiritualidade” (Goldman, 2004: 134). Da explicação acima é possível perceber que, mais do um sincero instrutor espiritual, Rajneesh-Osho foi um esperto ‘empresário espiritual’, cuja esperteza foi passada para seus sucessores, daí o contínuo sucesso financeiro do movimento até hoje.
Os ensinamentos
Muitos samnyasis (renunciantes), seguidores de Rajneesh-Osho, o caracterizaram como uma mistura de louco, salvador, charlatão e santo (Goldman, 2004: 122). Estritamente falando, em si mesmos, os ensinamentos de Rajneesh-Osho não eram originais, melhor dizendo, eles foram extraídos de uma diversificada mistura de diferentes fontes, sobretudo, TantraYoga, Zen, Sufismo, Budismo, Taoismo, Hassidismo, bem como de pensadores, de instrutores e de autores mais recentes: Nietzsche, Gurdjieff, Crowley, Krishnamurti e de ideias dos movimentos Contracultura e New Age. Hugh B. Urban resumiu assim: “Mais do que promover uma religião no sentido convencional, Rajneesh ensinou uma marca de espiritualidade radicalmente iconoclasta, uma filosofia antinomiana e um anarquismo moral. Como uma religião ‘sem religião’, ou anti religião, a religião dele era o caminho além da moralidade convencional, além do bem e do mal, e fundada na explícita rejeição de todas as tradições, de todos os valores e de todas as doutrinas. ‘Moralidade é uma moeda falsa, ela engana as pessoas’ ele advertia. ‘Um homem de real compreensão não é nem bom nem mal. Ele transcende ambos’. Para Rajneesh, a causa de todos os nossos sofrimentos é a deformante socialização ou o processo de programação de indivíduos pelas instituições culturais, tais como família, escola, religião e governo. Todas as metanarrativas e teorias predominantes sobre o universo são apenas ficções, criações imaginárias usadas por aqueles no poder para dominar as massas. A liberdade só pode ser alcançada através da desprogramação de tais narrativas, libertando-se das limitantes estruturas do passado. As pessoas devem ser desprogramadas e deshipnotizadas. ‘Vocês são programados pela família, pela educação e pelas instituições. Sua mente é como um quadro negro, no qual as regras estão escritas. Bhagavan escreve novas regras sobre o quadro negro. Ele diz a vocês uma coisa e em seguida o oposto que também é verdadeiro. Ele escreve e escreve no quadro negro da sua mente, até que ela se torne um quadro branco. Então, vocês não terão mais nenhum vestígio de programação nas suas mentes’” (Urban, 2003: 239). Ele tinha um estilo jocoso de criticar: “Vocês certamente sofreram uma lavagem cerebral, eu uso uma máquina de secar. E o que há de errado em sofrer uma lavagem cerebral? Lave seu cérebro todos os dias, mantenha-o limpo. Ele é apenas uma lavanderia religiosa de atualização” (Urban, 2003: 329).
Em razão de palestrar quase sempre e de escrever tanto, e tão afoitamente, os seus ensinamentos são flagrantemente contraditórios. Tanto que, até ele mesmo reconhecia e procurou se justificar: “Por que eu digo contradições? Eu não estou ensinando filosofia aqui. O filósofo precisa ser muito consistente, perfeito, lógico e racional. Eu não sou um filósofo. Eu não estou aqui dando para vocês um dogma consistente ao qual vocês podem se prender. Meu inteiro esforço é dar a vocês uma ‘não-mente’” (Urban, 2003: 241). Sendo assim, torna-se difícil sistematizar os ensinamentos de Rajneesh-Osho, ou seja, escrever um compêndio ou um manual sistematizado de suas doutrinas parece ser uma tarefa complicada. Ou como David G. Bromley e Susan J. Palmer explicam: “Rajneesh desenvolveu um complexo conjunto de ideias que desafia a elaboração de um simples resumo, porque Rajneesh acreditava na prioridade da experiência sobre as ideias e que o mundo incorpora inconsistência e um inter-relacionamento dinâmico de opostos” (Bromley, 2007: 140).
Enfim, ao mesmo tempo em que a sua sortida mistura de doutrinas religiosas atraiu muitos admiradores e seguidores, outros intérpretes a consideram uma deformação de todas estas doutrinas. Enquanto que, para os céticos, o Movimento Rajneesh-Osho foi mais um surto de religiosidade do século XX, com uma nova formatação e um novo arranjo, para atrair os crédulos, em uma época e para um público escolarizado que, cada vez mais, tornava-se secular, portanto na contra mão do sentido das sociedades com melhor qualidade de vida e dos indivíduos mais esclarecidos respectivamente.
O guru do sexo
Embora não fosse tudo, o elemento sexual era uma ênfase nas ideias e nas práticas do movimento, daí que Rajneesh-Osho ficou conhecido como o “guru do sexo” (Urban, 2003: 235s). Para o historiador H. Urban, quanto ao Tantra, “a versão de Rajneesh-Osho é a transformação em mercadoria e a comercialização da tradição” (Urban, 2003: 236). A prática da sua ‘meditação dinâmica’ é entendida, por muitos de fora do movimento, como uma orgia sexual.
Para este pesquisador, Rajneesh-Osho “foi um dos primeiros indianos a viajar para a América e importar sua própria marca de ‘neo-tantrismo’, vendida para a cultura consumidora americana no final do século XX”. O que ele fez foi uma “transformação do sexo em mercadoria”, bem como uma “espécie de transformação do êxtase em mercadoria”. Para este historiador das religiões, ele foi “o mais notável guru do sexo do século XX”. E mais, “Rajneesh oferecia tudo que os ocidentais imaginavam que o Tantra fosse: um culto de amor livre que prometia a iluminação, uma excitante comunidade radical. Rajneesh encaminhou-se confortavelmente para o papel de Messias do Tantra. Em grande parte por causa de Rajneesh, o Tantra ressurgiu como um culto New Age nos anos 1970 e 1980” (Urban, 2003: 237).
Rajneesh definia e interpretada o Tantra assim: “O Tantra é a suprema ‘não religião’ ou ‘antireligião’, uma prática espiritual que não exige ritual e moralidade rigorosa, mas, ao invés disto, livra o indivíduo de tais repressões. O Tantra é liberdade – liberdade de todos os construtos mentais, de todos os jogos mentais, o Tantra é libertação. O Tantra não é religião. Religião é um jogo da mente. O Tantra descarta todas as disciplinas” (Urban, 2003: 239-40). Rajneesh dizia: “O Tantra é rebelde. Eu não o chamo de revolucionário, porque ele não existe nada de político nele. É uma rebelião individual. É uma escapulida individual das estruturas e da escravidão. O futuro é esperançoso. O Tantra se tornará cada vez mais importante…” (Urban, 2003: 240).
No mais forte contraste com as instituições sociais estabelecidas, o Tantra não nega a vida e o corpo, melhor dizendo, ele é a suprema afirmação da paixão, fisicamente, do prazer. Ele é a suprema religião ‘apenas faça-o’, que celebra a vida em toda sua transitoriedade e contingência: o Tantra aceita tudo, vive tudo. Rajneesh-Osho declarava: “Isto é o que o Tantra diz: o Caminho Majestoso – comporte-se como um rei, não como um soldado. O Tantra celebra a natureza humana em suas dimensões mais defeituosas, fracas e mesmo aparentemente perversas. Se você é ganancioso, seja ganancioso, não se importe com a ganância”. E mais; “a aceitação tântrica é total, ela não separa você. Todas as religiões do mundo, exceto o Tantra, têm criado personalidades divididas, têm criado esquizofrenia. Elas dizem que o bem tem que ser alcançado e o mal negado, e que o demônio tem de ser negado e deus aceito. O Tantra diz que uma transformação é possível. A transformação vem quando você aceita o seu ser total. O ódio é absorvido, a cobiça é absorvida” (Urban, 2003: 240).
Sobretudo, o Tantra gira em torno do sexo, um poder que é, ao mesmo tempo, a mais intensa força na natureza humana e também a mais severamente distorcida pela sociedade ocidental. Porque o Ocidente Cristão Tradicional suprimiu a sexualidade, Rajneesh-Osho argumentava: “é a sexualidade que deve ser libertada se os discípulos modernos desejarem atualizar completamente seu eu interno. A repressão cristã tem criado muitos bloqueios no homem, onde a energia se tornou encolhida dentro de si mesma, se tornou estagnada, não é mais atuante. A sociedade é contra o sexo, ela criou um bloqueio…”.
Em oposição à atitude ocidental que nega a vida, o Tantra é o caminho que aceita tudo, sobretudo, o impulso sexual. Como o poder mais forte na natureza humana, o sexo torna-se a energia espiritual mais forte quando é plenamente integrada e absorvida. De modo que, muitas práticas ensinadas por Rajneesh-Osho envolviam sexo grupal. “Terapias intensivas”, tal como ele as chamava, as quais eram efetuadas para realizar uma catarse seguida pela transformação da consciência. Assim, o supremo objetivo das práticas tântricas é precisamente alcançar esta plena autoaceitação, amar a nós mesmos intensamente e completamente, com todos os nossos pecados, vícios, cobiças e desejos sexuais, e reconhecer que nós já somos perfeitos. Nas palavras de Rajneesh-Osho: “Esta é a coisa mais fundamental no Tantra, isto é, você já é perfeito… A perfeição não tem de ser alcançada. Ela simplesmente precisa ser percebida, uma vez que ela já está aí, O Tantra oferece a você a iluminação aqui e agora, sem prazo, sem adiamento…” (Urban, 2003: 240-41).
Antes de terminar este estudo, é preciso esclarecer que esta interpretação do Tantra de Rajneesh-Osho é extremamente controvertida. Nem todos os intérpretes admitem que o Tantra seja tão focado no sexo. Ademais, o Tantrismo é uma tradição multiplamente dividida em distintas correntes (hindu, budista, jainista, lamaísta, Shingon, etc.), a qual, mesmo dentro de cada uma destas correntes, desdobra-se em inúmeras subdivisões, portanto a versão deste extravagante e manipulador guru tântrico acima é mais uma dentre tantas muitas outras.
Obras consultadas
BHATTACHARYYA Benoytosh. An Introduction to Buddhist Esoterism. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1989.
BHATTACHARYYA, N. N. History of the Tantric Religion. New Delhi: Manohar Publications, 1987.
BROMLEY, David G. (ed.). Teaching New Religious Movements. London/New York: Oxford University Press, 2007, 140s.
BRUCE, Steve. Religion in the Modern World: From Cathedrals to Cults. Oxford: Oxford University Press, 1996, p. 178s.
CHATTOPADHYAYA, Sudhakar. Reflections on the Tantras. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1978.
EINOO, Shingo (ed.). Genesis and Development of Tantrism. Tokyo: University of Tokyo, 2009.
GOLDMAN, Marion. When Leaders Dissolve: Considering Controversy and Stagnation in the Osho Rajneesh Movement em Controversial New Religions. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2004, p. 119-37.
_________________ Cultural Capital, Social Networks and Collective Violence at Rajneeshpuram em Violence and New Religious Movements. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2011, p. 307-23.
KAVIRAJ, Gopinath. Aspects of Indian Thought. Burdwan: The University of Burdwan, 1966, p. 175-240.
KING, Richard and Jeremy Carrette. Selling Spirituality: The Silent Takeover of Religion. London/New York: Routledge, 2004, p. 153-8.
NAGARAJ, Anil Kumar. Osho, Insights on Sex em Indian Journal of Psychiatry, vol. 55, issue 06, January 2013, p. 268s.
OSHO. Tantra: The Supreme Understanding. Osho International Foundation, 1st edition 1975; online edition 2010a
______ Tantric Transformation. Osho International Foundation, 1st edition 1977; online edition 2010b.
———– Christianity: The Deadliest Poison and Zen, The Antidote to all Poisons. Osho International Foundation. 1st edition 1977; online edition 2010c.
SALIBA, John A. Psychology and the New Religious Movements em The Oxford Handbook of New Religious Movements. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2004, p. 323-32.
SANDERSON, Alexis. The Saiva Age em Genesis and Development of Tantrism, Shingo Einoo (ed.). Tokyo: Unversity of Tokyo, 2009, p. 41-349.
URBAN, Hugh B. Tantra: Sex, Secrecy Politics and Power in the Study of Religion. Berkeley: University of California Press, 2003.
USBORNE, David. Strange Days When the Guru Came to Town em The Independent, London: July 27, 1995, p. 2-3.
WADDELL, L. Austine. Tibetan Buddhism, With Its Mystic Cults, Symbolism and Mythology. New York: Dover Publications, 1972.
WELCH, Bob. Rajneeshees’ Ranch Still a Spiritual Mecca. Eugene (Oregon): The Register Guard, May 29, 2003, p. D-1.
Websites:
Osho International Institute: www.osho.com
Osho International Meditation Resort: http://www.osho.com/Main.cfm?Area=medresort
Osho talks: http://osho.tv/

https://observadorcriticodasreligioes.wordpress.com/2014/01/01/rajneesh-osho-e-sua-trajetoria-circular/

mardi 20 janvier 2015

A base do budismo é a realidade do aqui é do agora


Esther Sternberg*: Eu gostaria de lhe perguntar se um terapeuta que meditasse poderia desenvolver mais ainda a compaixão e ser assim mais apto a ajudar seus pacientes? E a compaixão, trás em si, a capacidade de melhor gerar o estresse do dia a dia?

Dalai Lama: Para ambas as questões a resposta é positiva. Alguns amigos meus, acham que a ética, ou a moral, deve se basear numa espécie de fé religiosa, mas a leitura budista sobre essa questão é a mesma do humanismo. A base do budismo é a realidade do aqui é do agora, a existência em si; a condição humana e tudo aquilo que isso envolve. No budismo elementos como gentiliza, compaixão, o cuidado e a atenção para como o próximo, são importantes.
Nos somos mamíferos que necessitamos de cuidado desde que nascemos. Com outros mamíferos isso também ocorre de uma certa maneira. Esse conjunto de cuidados que nos são dirigidos desde que chegamos no mundo tendemos a classificar como: carinho. E sem isso como poderíamos viver? A religião não tem nada a ver com esse processo. Nós temos esse potencial que alimentamos ao longo de nossa vida. Enquanto animais inteligentes nós podemos compreender que todo esse cuidado, que toda essa compaixão, é útil; e nós temos a capacidade de desenvolve-las ainda mais.
Existe também no mundo animal, em geral, esse cuidado com a prole desde o nascimento. Mas a partir do momento em que o filhote esta pronto esse carinho se dissipa. Enquanto seres humanos, tendemos a cada vez mais aumentar esse elo, esse carinho, entre pais e filhos.
E por ter esse caráter humanista que eu acho que o budismo é mais aceitos por aqueles que não acreditam num deus criador de todas as coisas. Pois a base do budismo é realmente a realidade do aqui e do agora. E uma grande parte do discurso budista visa tratar dos problemas ligados ao fato de simplesmente existirmos. E do ponto de vista budista a ética ou a moral não tem necessidade em se apoiar numa fé religiosa, seja ela qual for. E a partir dai fica mais fácil a introdução da meditação budista pela medicina, por exemplo.

L'esprit est son propre médecin - Jon Kabat-Zinn et Richard Davidson

* Diretora do centro de pesquisa neuro imunológico do NIH.

Tradução: Ricardo Castro

mercredi 18 juin 2014

Seis coisas que aprendi com minha avó vanguardista


Minha avó é vanguardista. Dona Regina foi estilista da tropicália, teve uma galeria de arte e hoje em dia continua na ativa como marchande. Cresci frequentando sua casa, sempre com pessoas e assuntos legais. Tive a sorte de ter sido tratado como criança/adolescente e ao mesmo tempo receber boas doses de sabedoria vanguardista. Nunca escrevi um texto na internet, mas acho que alguns de meus aprendizados e minha vó merecem ser compartilhados. Então segue a listinha:
1. Cuidado com o que você cria.
Eu tinha 10 anos de idade e estava no carro imaginando com ela como seria o futuro. Falei que no futuro não existiram mais carros, que as pessoas entrariam em vagões e apenas selecionariam seu destino. Comecei a elaborar a idéia e adicionei que os vagões iriam identificar as pessoas e se você fosse um bandido, ou algo assim, o vagão não andaria e você seria preso. Minha vó detestou minha ideia, ficou brava e disse:
— Isso é fascismo, você não pode controlar as pessoas assim.
Depois ela pegou mais leve e disse que a ideia seria boa se não tivesse um sistema de identificação. Na hora foi difícil entender, mas foi um bom choque. Até hoje eu abomino qualquer uso de tecnologia para identificação ou controle de pessoas.
2. O estranho muda a estética do que é belo.
Estávamos assistindo televisão quando passou uma reportagem sobre o São Paulo Fashion Week. Olhei aquelas roupas e falei que tudo era entranho e feio. Ela discordou, disse que elas eram bem boas, ainda mais por serem estranhas. Depois explicou que só assim elas poderiam mudar a estética do que é belo. Hoje em dia é assim, bato o olho em qualquer desenho, se tenho um estranhamento, é porque é bom. 
3. A mensagem justifica os meios.
Muita gente não gosta da ideia do David Bowie tocar no Caldeirão do Huck, mas minha vó seria radicalmente a favor. Quando tivemos essa discussão adolescente ela usou argumentos matadores. Por mais que você não concorde ou não dê valor a um meio de comunicação, você não pode recusá-lo. A mídia de massa é algo muito valioso, aproveite esse tipo de oportunidade para alcançar pessoas, sejam elas quem forem. Se um dia eu for empresário do David Bowie e só a TV Gazeta quiser entrevistá-lo, usarei esses argumentos para convencê-lo a ir ao programa “Mulheres”.
4. Cada geração com sua questão.
Quem me deu esse toque foi um amigo da minha vó, mas toda a situação foi gerada em sua casa. Tínhamos assistido o filme “Aguirre, a Cólera de Deus” (um filme alemão muito doido) e comecei mais um discurso adolescente de que, em minha geração, não existiam mais atores radicais como o protagonista Klaus Kisnki. O amigo da minha avó apontou para um quadrinho do Leonilson, que tem uma vela bordada com um “sim” em uma ponta e um “não” na outra, e disse: -Não existe mais um muro de Berlin assim como existia para Kiski. Agora o “Sim” e o “Não” participam da mesma idéia. Para mim isso foi um divisor de águas, nunca mais senti culpa de não ser radical, de não ter um posicionamento político claro e das minhas opiniões serem uma mistura de diversas coisas. Praticamente saí da adolescência.
5. Jantar chique é com comida e música brasileira.
Isso eu aprendi frequentando, se você for receber amigos em casa e quiser fazer algo bem charmoso, não faça quiche, não faça macarrão, não faça nada que veio da França. Bom mesmo é cuscuz paulista, canjiquinha com costelinha, moqueca de peixe, ou até mesmo um simples lombo com arroz e feijão. Tudo isso tem que ser acompanhado com música brasileira. O segredo da minha vó está em explorar o que a gente tem de melhor. Dessa maneira o jantar fica charmoso até para o embaixador da Suíça.
6. É preciso desobedecer.
Minha vó pratica a desobediência frequentemente, de diferente maneiras e modalidades. Diz a lenda que ela é assim desde pequena. Se você reparar, tudo o que eu falei até agora tem a ver com isso. Minha personalidade é bem diferente, eu sou certinho e medroso, mas posso dizer que depois de tantos anos sendo cúmplice da minha vó, eu aceito e me sinto apto a desobedecer. Posso dizer também que graças a minha vó posso caminhar para frente, aceitar o novo e evitar tropeços em atrasos.
Manoel Brasil Orlandi 

jeudi 14 novembre 2013

Nada é mais limitado que o prazer e o vício.


Lá onde a vida levanta muros, a inteligência fura uma saída.

Nossa personalidade social é uma criação do pensamento dos outros.

A persistência em mim de uma veleidade antiga em trabalhar, em reparar o tempo perdido, em mudar de vida, ou mais ainda em começar a viver, me dava a ilusão de que eu era sempre jovem.

Agir é bem diferente de falar, ainda que com eloquência, e pensar, ainda que com engenho.

Nos lugares novos, onde as sensações não estão amortecidas pelo hábito, revigoramos, reanimamos uma dor.

Toda ação do espírito é fácil se não está submetida ao real.

Na humanidade, a frequência de virtudes idênticas em todos não é mais maravilhosa que a multiplicidade de defeitos particulares em cada um.

O homem é o ser que não pode sair de si, que só conhece os outros em si mesmo e, dizendo o contrário, mente.

O universo é verdadeiro para todos nós e diferente para cada um.

Cada qual chama de ideias claras aquelas que têm o mesmo grau de confusão que as suas.

Não se cura um sofrimento senão à condição de sofrê-lo plenamente.

Mais tarde se vê as coisas de maneira mais prática, em total conformidade com o resto da sociedade, mas a adolescência é o único tempo no qual se aprende algo.

Um homem de grande talento prestará menos atenção à tolice alheia do que um tolo.

Amamos a partir de um sorriso, um olhar, um ombro. Isto basta; então nas longas horas de esperança ou de tristeza fabricamos uma pessoa, compomos um caráter.

É surpreendente como o ciúme, que passa o tempo a fazer pequenas suposições falsas, tem pouca imaginação quando se trata de descobrir o verdadeiro.

O tempo de que dispomos cada dia é elástico; as paixões que sentimos o dilatam, as que inspiramos o encolhem, e o hábito o preenche.

A recordação de certa imagem não é senão o lamento por certo instante; e as casas, as estradas, as avenidas, são fugitivas, ai, como os anos.

A partir de certa idade, mesmo se evoluções diferentes se cumpram em nós, tanto mais um se torna si mesmo, mais os traços familiares se acentuam.

Tentamos ver a quem se ama, deveríamos tentar não vê-lo, só o esquecimento pode propiciar a extinção do desejo.

A felicidade é salutar para o corpo, mas é o sofrimento que desenvolve as forças do espírito.

Os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos.

A ambição inebria mais do que a glória.

Nada é mais limitado que o prazer e o vício.

Marcel Proust

jeudi 10 octobre 2013

cadeia só funciona para quem não tem dinheiro


"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em
dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."
Luiz Ruffato