mardi 24 avril 2012

Intolerância religiosa


Intolerância religiosa

O fervor religioso é uma arma assustadora, disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso

SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos. A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos. Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias. Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus? Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?

O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades. Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.

Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas. O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.

Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo. Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.

DRAUZIO VARELLA

jeudi 19 avril 2012

Delírios religiosos


Qual é a freqüência de delírios religiosos entre portadores de transtornos psicóticos? As taxas de prevalência dependem do transtorno psicótico respectivo e do local no mundo onde vivem essas pessoas. Em áreas menos religiosas do mundo, um estudo mostrou, por exemplo, que só 7% de 324 pacientes japoneses internados tiveram delírios de perseguição e religiosos de culpa (Tateyama et al., 1998). Esta taxa é semelhante à de um estudo de âmbito nacional de pacientes hospitalizados com esquizofrenia no Japão que envolveu 429 pacientes cuja prevalência de delírios religiosos foi de 11% (Kitamura et al., 1998).
Nos Estados Unidos, vários estudos examinaram delírios religiosos em pacientes com esquizofrenia ou transtornos bipolar. O primeiro desses resultados oriundo de um estudo pequeno de 41 pacientes psicóticos em Nova York verificou que 39% dos pacientes com esquizofrenia e 22% daqueles com mania tinham delírios religiosos (Cothran e Harvey, 1986). Um estudo muito maior de 1.136 pacientes psiquiátricos internados nos Estados Unidos (do meio-oeste e do leste) destacou que 25% dos pacientes com esquizofrenia e 15% dos portadores de transtorno bipolar tinham delírios religiosos (Appelbaum et al., 1999). Comparados a outros delírios, delírios religiosos parecem ser aceitos com maior convicção que outros delírios. Finalmente, Getz et al. (2001) compararam a freqüência de delírios religiosos entre as denominações religiosas em 133 pacientes internados (74% de esquizofrenia) no Centro Médico da Universidade de Cincinnati. Foram documentados delírios religiosos em 24% dos 33 pacientes não-religiosos, 43% de 71 pacientes protestantes e 21% de 29 pacientes católicos.
Na Europa e Grã-Bretanha, um estudo com 251 pacientes internados com esquizofrenia na Áustria e Alemanha verificou taxa de prevalência de 21% para delírios religiosos (Tateyama et al., 1998). Um dos estudos mais detalhados até o momento na Grã-Bretanha detectou que 24% de 193 pacientes com esquizofrenia tinham delírios religiosos (Siddle et al., 2002a). Os pacientes com delírios religiosos tinham mais alucinações graves e delírios bizarros, maior nível de incapacitação, duração mais longa da doença e estavam tomando mais medicamentos antipsicóticos que outros pacientes. Assim, em estudos de pacientes com esquizofrenia, delírios religiosos estão presentes em 7% a 11% de pacientes japoneses, 21% a 24% de pacientes europeus ocidentais e 21% a 43% de pacientes nos Estados Unidos.
Poucos estudos têm examinado delírios religiosos entre pacientes psiquiátricos no Brasil. Mucci e Dalgalarrondo (2000) relataram uma série de enucleações oculares em seis casos de pacientes psiquiátricos, cinco unilaterais e uma bilateral. Delírios religiosos foram um fator significativo em muitos desses casos, com pacientes agindo como nos diz Mateus (5:29): "Se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno". Esses pacientes tiveram freqüentemente exacerbação aguda de esquizofrenia, e a enucleação auto-infligida ocorreu muitos anos após o início da doença. Esses seis casos foram vistos ao longo do período de 10 anos em um hospital universitário brasileiro.
No único estudo sistemático de pacientes psiquiá­tricos no Brasil, os pesquisadores examinaram 200 admissões consecutivas a um hospital psiquiátrico geral (Dantas et al., 1999). Para identificar o conteúdo religioso, um item foi acrescentado à forma expandida da BPRS. Foram incluídos os pacientes com diagnóstico psiquiátrico, não apenas aqueles com transtornos psiquiá­tricos. Os pesquisadores informam que 15,7% de todos os pacientes tiveram de moderados a intensos sintomas de conteúdo religioso. Uma correlação forte foi achada entre sintomas maníacos e experiências religiosas.
Qual é a origem dos delírios religiosos? Delírios religiosos existem em um continuum entre as crenças normais de indivíduos saudáveis e as crenças fantásticas de pacientes psicóticos. Em pacientes psicóticos, delírios religiosos são habitualmente acompanhados por outros sintomas e/ou comportamentos de doença mental, e não parecem ter nenhuma função positiva (Siddle et al., 2002a). Sabe-se que pessoas com sintomas psicóticos têm maior ativação do hemisfério direito do cérebro, o que também se verifica em pessoas saudáveis que tenham experiências místicas ou crenças paranormais (Lohr e Caligiuri, 1997; Pizzagalli et al., 2000; Makarec e Persinger, 1985). Contudo, a tentativa de localizar a origem dos delírios religiosos no cérebro não tem revelado resultados consistentes com os achados de neuroimagem descritos anteriormente. O único estudo realizado até o momento sugeriu que delírios religiosos sejam o resultado de uma combinação de hiperatividade do lobo temporal esquerdo e hipoatividade do lobo occipital esquerdo (Puri et al., 2001). Assim, até que mais pesquisas sejam realizadas, a origem neuroanatômica dos delírios permanece incerta. 

http://www.scielo.br/scielo.php?lng=en

samedi 24 mars 2012

Territórios livres



Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. Ao mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida, e dívidas, que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos. Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja. Se tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu. O poder dela está por toda a parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros.

Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de Igreja e Estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste país, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado.

É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.

Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa. Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração. No caso, de liberdade.

Luis Fernando Verissimo

vendredi 16 décembre 2011

O medo é a ferramenta que controla


Por que a humanidade concebeu a religião?
Michael Largo: A morte é uma das principais razões para a humanidade ter inventado a religião. As vidas dos nossos primeiros ancestrais foram atormentadas pelas incríveis incertezas. A morte foi a mais atormentadora. Naquela época, a expectativa de vida era de apenas 18 anos de idade, então a mortalidade era uma experiência cotidiana. Eu imagino um bando de humanos primitivos de pé ao lado do corpo de um familiar morto, se perguntando: “Para onde foi aquela coisa que dava vida e animação ao meu companheiro?”. Quando não havia mais respostas para a vida e para a sobrevivência, os humanos precisaram inventar explicações, que invariavelmente se tornaram catalisadoras para a teologia e a religião.


Quais foram os primeiros vestígios de religiosidade na história humana?
Largo: Os Neandertais provavelmente ensinaram aos humanos como praticar rituais religiosos e como buscar respostas ao inexplicável. Eles colocavam, por exemplo, crânio de urso e adereços ritualísticos em volta dos cadáveres. Os primeiros túmulos humanos, datados de 100 mil anos atrás, foram descobertos em uma caverna perto de Nazaré, em Israel. Os restos mortais tinham sido sepultados ritualisticamente, com os ossos pintados de vermelho, conchas marinhas dispostas ao redor e crânios apontando o Norte. Isso indica que nossos mais remotos ancestrais tinham uma crença, pelo menos, na vida após a morte.


Como começou essa sua vontade de conhecer diferentes religiões? O que você buscava?
Largo: Existem muitas religiões que vêm e vão e algumas milhares que são praticadas até hoje. Eu queria ver se havia uma verdade ou algum tipo de consistência entre a variedade de sistemas de crença. Para meus outros livros, eu pesquisei sobre a morte por muitos anos. Eu admito que, em alguns momentos, enquanto eu compilava estatísticas e contava as infinitas colunas de vidas humanas que vinham e iam – geralmente não deixando nenhuma marca de sua existência além de um mero dígito no cálculo –, eu me perguntava: “Qual é o propósito de tudo isso?”.

E você encontrou essa verdade?
Largo: Eu descobri que as religiões baseiam todos os seus fundamentos em ideias e conceitos que não podem ser provados e, por isso, nada pode ser oferecido como a verdade. Os mais loucos conceitos se tornaram dogmas, demandando fé para aceitá-los. Olhando pelo lado negativo, há uma tendência entre as religiões de promover o comportamento delirante e irracional. Na verdade, crenças religiosas têm causado mortes em massa, seja por guerras ou por dogmas e doutrinas. Mas olhando positivamente, de acordo com teólogos, as religiões têm confortado muitas pessoas e salvado bilhões de almas.

Você passou 25 anos de sua vida conhecendo religiões. Como se deu essa jornada, na prática?
Largo: Eu fui educado por jesuítas, mas minha experiência de campo começou como um coroinha católico que falava Latim. Pratiquei uma série de doutrinas orientais, do Zen à Meditação Transcendental. Nos anos 1970, presenciei uma cerimônia rastafariana na Jamaica. Também assisti a palestras da Nova Era, inclusive sobre teorias de anjos viajantes no tempo e a respeito do valor esotérico dos cristais. Comi cogumelos com algumas mulheres adeptas das religiões Druidas e Gaia, em Nova Iork. Cerimônias de anglicanos, metodistas, calvinistas – já assisti muitas. Dei a palma da minha mão para que a lessem, participei de uma sessão de regressão a vidas passadas, fui a retiros espirituais cristãos e orientais em fins de semana. Sem contar com os templos sagrados em Roma que visitei e o culto de santeria em Miami que participei. Reconhecidamente, e em nome da ciência, eu tomei alucinógenos, tentando infrutiferamente tomar notas sobre os diversos conhecimentos religiosos.

E em que países isso aconteceu?
Largo: Como existe mais de 300 mil locais de culto nos Estados Unidos, o meu país tem sido um terreno furtivo para a pesquisa. Mas eu gosto particularmente do Caribe. Estive também no México, na França, na Inglaterra, apesar de que a Itália, para mim, é o local mais cheio de santuários intrigantes.

Qual foi a situação mais exótica e bizarra por que você já passou?
Largo: Testemunhar sacrifício de animais foi tão bizarro quanto revoltante. Mas eu diria que um breve caso amoroso com uma freira dominicana, que eu conheci durante entrevistas na República Dominicana, foi a mais exótica – poderia chamar também de experiência erótica religiosa.

Qual sua dica aos curiosos religiosos?
Largo: Eu recomendo que eles confiram os detalhes de cada religião, antes de comprar a ideia. Façam isso lendo os dogmas de cada crença, da mesma forma que você leria o relatório de um produto. Muitas pessoas fazem uma pesquisa mais minuciosa sobre o celular novo que vão comprar do que sobre a religião que eles herdaram da família ou a que aderiram no decorrer da vida. Os cultos, que são definidos como grupos religiosos que demandam lealdade a um líder, são os mais arriscados. Muitos são especialistas em explorar o carisma, que pode facilmente cegar alguém da realidade e torná-lo um fanático.

Se você pudesse escolher apenas uma história de toda a sua jornada para contar, qual seria?
Largo: Depois de todas as igrejas que visitei e as entrevistas com pessoas religiosas que fiz, o momento mais comovente de como a religião funciona ocorreu no leito de morte da minha mãe. Ela sentia um grande desconforto e visualmente sofria de ansiedade e medo. Eu segurei sua mão e disse a ela uma mentira: que logo ela encontraria meu pai, pois ele estava esperando por sua noiva. Ela abriu os olhos só mais uma vez e sorriu, antes de falecer.

Como foi o processo de escrita do livro?
Largo: Eu já tinha muitos anos de anotações das minhas pesquisas de campo, mas passei um ano comprometido com a rotina devota. Trabalhei sobre textos antigos, li doutrinas e dogmas das religiões, fiquei atento ao que alguns monges chamam de lectio divina, ou leitura divina. Eu tentei não abordar nenhuma ideologia religiosa com condenações pré-condicionadas ou preconceitos.

Mas você consultou muitas fontes, além das experiências práticas?
Largo: Eu precisei ler o Velho e o Novo Testamento inteiros, além do Corão, é claro. No livro, eu listo uma centena de textos religiosos que usei como fonte.

O uso de chás, cogumelos e substâncias psicotrópicas faz parte de muitas crenças. Por que essas religiões aderiram a essas substâncias?
Largo: O escritor Aldous Huxley, durante seu experimento com substâncias psicotrópicas, notou que elas abriam as chamadas portas de percepção. Muitas religiões dão grande valor aos sonhos, como se fosse uma maneira de conhecer a voz de Deus. Mesmo no Império Romano, praticava-se o que se chamava de mistérios de Elêusis, que recomendava ingerir cogumelos pelo menos uma vez ao ano, a fim de ver e experimentar o que apenas Deus sabia. No entanto, tal atividade pode ser prejudicial à saúde.

Por que a religiosidade, em algumas pessoas, se torna insanidade?
Largo: Além do medo da morte, existe o medo da condenação eterna. Religiões que dão muito valor à vida após a morte e ameaçam quem não segue suas regras com a perspectiva de punição eterna geralmente levam seus fiéis ao fanatismo. Substâncias alucinógenas, rituais de jejum, automortificação e outros meios bizarros que as pessoas utilizam para atingir o êxtase religioso também costumam alterar a química do corpo, levando a um desequilíbrio mental.

No livro, você falou sobre “nudismo religioso”. Como funciona essa crença? Ela ainda existe hoje em dia em algum lugar do mundo?
Largo: Ela decorre de uma interpretação do Livro de Gênesis. O pecado foi o que levou à prática de vestir roupas e ao matrimônio. Adão e Eva, quando possuíam a inocência pura, não precisavam nem de vestimenta nem de casamento. A nudez, segundo a religião, é uma prova de que eles atingiram o estado de graça e estão libertos de todas as restrições morais concebidas pela humanidade. Hoje, existe a Igreja Batista do Calvário Nudista, no Texas.


Por que a ideia de apocalipse está tão incrustada nas diversas religiões? Por que os religiosos se apegam a ele?
Largo: Na minha pesquisa, eu descobri que mais de 80% dos cultos usam revelações de Agamemnon para arrebanhar seguidores. Novamente, o medo é a ferramenta que controla seguidores, especialmente quando envoltos na conversa de ter visões divinas.

Você acha que a religiosidade está ganhando cada vez mais força entre os humanos? Ou você acha que a humanidade caminha para a não religião?
Largo: Na estatística, menos pessoas estão indo à igreja, enquanto muitos continuam querendo aderir a uma ou outra religião. O ateísmo está em ascensão em todo o mundo, e saindo do armário. Como a tecnologia e a informação estão cada vez mais disponíveis, novos deuses estão sendo concebidos. O terrorismo mundial também ajudou a abrir muitos olhos, para ver em primeira mão o que fanáticos religiosos podem fazer. Eventos atuais indicam que nosso próprio fim dos dias, ou pelo menos uma transformação significante de nossa cultura, possa ser instigado por alguma forma de insanidade religiosa.

Você conheceu e pesquisou diversas religiões. Mas no que você acredita de verdade?
Largo: Eu acredito nas possibilidades do inimaginável. Como Stephen Hawking já notou, nós vemos o mundo a partir de uma perspectiva distorcida. Ele usa a analogia de um peixe em uma tigela redonda, observando todas as coisas se movendo em uma curva, devido à refração da luz através da água. Essa é a verdade para o peixinho. Seria necessária certa arrogância para pensar que nós realmente sabemos alguma coisa, não importa quantos livros nós tenhamos lido ou a graduação que possuímos.


Em sua opinião, para onde vamos quando morremos?
Largo: Talvez, nossos átomos são colocados em um liquidificador cósmico, e nós vivemos como parte de qualquer outra coisa. Eu não tenho a mínima ideia. Quem tem? Certamente será uma viagem inacreditável, mas uma viagem que eu prefiro evitar pelo tempo mais longo possível. [Risos].

O que você ainda não descobriu que quer descobrir?
Largo: Se existe um Deus. Acho que, se ele (ou ela) existisse, deveria ser capaz de vir até aqui e arrumar todas essas muitas ideias religiosas de uma vez por todas. Ou mandar um texto para o mundo inteiro, ou algo do tipo. Mas até nisso muitos não acreditam.

Sua próxima pesquisa será sobre o quê?
Largo: Estou terminando um texto sobre bestas e criaturas, reais e imaginárias, descrevendo como eles viveram e morreram.

Seguidores da Igreja Batista Nudista do Calvário, no Texas, EUA, acreditam que a salvação está em viver como Adão e Eva antes da expulsão do Jardim do Éden. Por isso, aboliram de suas crenças o casamento e defendem o nudismo sagrado, como prova da ausência de pecado. Esta é apenas uma das histórias peculiares relatadas por Michael Largo no livro “Lunáticos por Deus”, lançado no Brasil pela editora Lafonte.

O escritor, autor de meia dúzia de livros sobre a morte, nasceu em Nova York nos anos 1950, em uma família de jesuítas. Há 25 anos, porém, adotou como missão de vida documentar e coletar histórias de fanáticos religiosos. Nessa busca, Largo já presenciou sacrifício de animais, ingeriu cogumelos e outras substâncias psicotrópicas, ouviu tambores vodus no Haiti, assistiu a uma cerimônia rastafariana na Jamaica e leu mais de uma centena de textos religiosos.

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI281112-17771,00-O+CACADOR+DE+RELIGIOES.html



vendredi 9 décembre 2011

Como lidar com as manipulações?

A economia comportamental parte do princípio que somos irracionais em alguns momentos. Como é isso?
Por 20 anos esse tipo de abordagem foi completamente rejeitada pelos economistas mainstream. Para eles, as pessoas eram racionais em todas as situações e entendem as situações bem o bastante para identificar os melhores caminhos.

A pesquisa psicológica, no entanto, diz que as pessoas têm muitas habilidades, mas que há muito no mundo para que consigam entender tudo. E que muitas situações que enfrentamos são tão novas que realmente não sabemos o que queremos. Assim, algumas vezes nós fazemos escolhas ruins. Marqueteiros levam vantagem desses erros, conseguindo manipular as nossa percepções e os nossos desejos.

Quando as pessoas não sabem exatamente o que querem ao tomar uma decisão, elas pegam dicas das circunstâncias e podem ser manipuladas. Um exemplo, em vários países, é sobre a questão de doar órgãos. Em lugares que você tem de formalizar uma opção para se tornar um doador, o número de doadores cai, e a situação contrária acontece quando você tem de formalizar a opção de não ser. Isso é explicado por uma tendência irracional a se adequar ao padrão ao fazer uma decisão. Se a pessoa entende que o padrão é ser doador, ele tem mais chances de decidir que também será.

Como lidar com as manipulações?
A melhor solução quando se vai tomar uma decisão é tentar ver várias perspectivas do problema. Por isso, é importante para o governo ter certeza de que a informação é apresentada de uma maneira justa. Nos últimos 4 anos, coordeno um comitê da FDA (agência americana que controla medicamentos e alimentos) para que as pessoas sejam informadas de uma maneira justa sobre remédios. Tudo que tem um benefício também oferece um risco. Diferentes formas de passar a mesma informação podem induzir as pessoas em direção a uma ou a outra das opções.

Mas os economistas comportamentais não querem apenas informar mais.
Enquanto nós psicólogos, neste campo, tentamos assegurar que a comunicação funcione bem, dar a melhor informação, os economistas comportamentais tentam fazer sentenças para empurrar as pessoas da decisão correta. Eles aproveitam os mecanismos de decisão irracional para manipular as pessoas em direção a algo que achem correto, como decidir mais por comprar frutas em vez de alimentos não-saudáveis.

O senhor concorda com esse empurrãozinho?
A questão que eu faria é: nós não estamos desistindo das pessoas muito rápido? Se nós tentássemos mais, não poderíamos fazer com que as pessoas tomassem as decisões certas, de maneira independente? Temos uma obrigação ética de trazer toda a educação que é possível, mas também precisamos ser realistas sobre os limites dessa educação. Se não há informação suficiente, temos de aumentar a educação. Mas, quando as decisões forem difíceis para as pessoas, elas precisam ser assistidas.

Não seria mais o caso das pessoas pararem mais para pensar sobre suas opções?
Pensar mais é bom, mas o que importa mais é ter diferentes perspectivas. Há muitos anos, fiz um estudo com outros psicólogos onde perguntamos às pessoas o quanto elas sabiam sobre coisas diferentes. Constatamos que, em geral, as pessoas são superconfiantes. Na média, achavam que acertariam mais questões do que realmente acertavam.

Demos então a um outro grupo a tarefa de pensar em uma série de razões pelas quais sua resposta inicial poderia estar certa e a um outro grupo pedimos que pensassem em como poderiam estar errados. O grupo que pensou sobre as razões para ter errado se tornou menos superconfiante e mais preciso sobre as previsões que faziam. O simples fato de você mudar a perspectiva e pensar nas razões pelas quais poderia estar errado sobre um fato faz com que suas estimativas se tornem mais realistas e que você seja menos sujeito a tendências irracionais.

Vivemos numa época de muita informação. Isso também nos leva a tomar decisões irracionais?
Há uma limite em relação à quantidade de coisas que você pode pensar, então isso pode sim fazer você cometer erros. Há 2 formas de lidar com isso. A primeira é restringir as opções. Pegue apenas um número pequeno de opções e você decidirá melhor sobre isso. A segunda é tentar pegar uma amostra de todas as opções possíveis.

Então, se você restringe a decisão de uma viagem a apenas custos, tempo e comida, é mais fácil que você acabe não errando. Mas isso te deixa vulnerável a perder coisas inteiramente. A outra estratégia é estar aberto a todas as possibilidades, mas assumir que você vai parar quando encontrar algo bom o suficiente. Se você parar para analisar cada detalhe de tudo, não vai conseguir, vai ficar louco e não vai fazer uma boa decisão.

Um dos meus colegas, Herbert Simon, Nobel de Economia, um dos fundadores da área, fez essa distinção: ou você faz um trabalho perfeito numa pequena porção de coisas, ou um trabalho satisfatório olhando para tudo.

As emoções também podem alterar nossas decisões?
Tem muita pesquisa recente mostrando isso. Em situações onde as pessoas não tem certeza, você pode mudar a decisão delas manipulando as suas emoções. Por exemplo, em situações de raiva, as pessoas tendem a ser mais otimistas. Se você está com raiva e te pedem que faça uma previsão sobre se algo vai funcionar, você tem mais chance que alguém que não esteja com raiva de achar que as coisas vão dar certo.

Baruch Fischhoff - PHD

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI279849-17770,00-O+MARKETING+MANIPULA+NOSSA+PERCEPCAO+E+NOSSO+DESEJO.html

mercredi 30 novembre 2011

O capitalismo trivializou a paixão

Em "Monogamia", o senhor diz que não há nada mais escandaloso do que um casamento feliz. Por quê?

Adam Phillips - O que amamos e odiamos num casamento feliz é ver nossos primeiros desejos e medos acontecendo na vida real. Toda criança começa seu desenvolvimento em uma relação monogâmica, com a mãe. E a maioria passa os primeiros 11, 15 anos da vida muito conectada a mãe e ao pai. É uma espécie de monogamia bissexual. Crescer é passar da necessidade de ter só uma pessoa para a necessidade de ter duas (mãe e pai) e a necessidade e a capacidade de se relacionar com várias.

Daí nossa tendência para a relação monogâmica?

A relação monogâmica é uma memória muito poderosa, é onde começamos. Hoje, muita gente acha difícil manter uma relação monogâmica. Queremos coisas opostas, desejamos coisas proibidas e não sabemos que queremos essas coisas. A cultura torna os desejos muito problemáticos. Muitas pessoas desejam um relacionamento monogâmico, apesar de não serem capazes de lidar com ele.

Quais são as maiores dificuldades da monogamia?

Os problemas surgem quando as pessoas desejam esse tipo de relacionamento, mas não conseguem realizá-lo. E para quem pensa que é isso o que deseja, mas descobre que não era o que queria.

A solução, no caso dessas pessoas, é a infidelidade?

Sim. E pode dar certo, mas sempre com conflito. Todo mundo tem ciúme sexual, ninguém suporta dividir seu parceiro de sexo. Alguns dizem que suportam, mas é impossível. Se amamos e desejamos alguém, não queremos dividi-lo com outros.

Isso tem a ver com a memória da relação entre mãe e bebê?

Sim. E também com o fato de termos necessidades e só determinadas pessoas poderem satisfazê-las.

Concorda com a tese de que mulheres são por natureza propensas à monogamia?

Acredito na teoria da evolução de Darwin, mas penso que evolução envolve cultura. Há boas explicações em termos de sobrevivência da espécie para sustentar que a mulher quer um homem para a vida toda e o homem deseja mais parceiras, mas não acho que a questão da sobrevivência seja a explicação final. Se fosse, a família nuclear seria a única coisa óbvia a se fazer.

Há diferentes formas de garantir a reprodução da espécie, há muitos jeitos de criarmos as crianças. E muitas formas de fazer sexo, não explicadas por essas teorias.

O senhor diz que uma sociedade sem a possibilidade de infidelidade seria perigosa...

Seria uma mentira. Colocaria pressão demais nos casais, obrigando um a ser tudo para o outro. É uma demanda moral irrealista. Outro perigo é a monogamia acabar com o desejo e virar uma prisão.

Acha a sociedade hipócrita em relação à monogamia?

Sim, se ela afirmar que é a única forma boa de relação para todos e o tempo todo.
Mas hoje também há muita gente dizendo que toda relação monogâmica é hipócrita, o que não é verdade. Para alguns, é um desejo genuíno, uma experiência real.

Tão real quanto traição?

As duas formas são construções sociais. O capitalismo trivializou a paixão, fez com que as pessoas se desiludissem em relação ao amor. Isso leva a pensar que as relações sexuais são algo que se compra no mercado só para levar a vida adiante. O capitalismo tenta dissuadir a criação de vínculos reais. E valoriza demais o prazer. E, para a psicanálise, o prazer é sempre um problema. Qualquer pessoa que te venda um prazer fácil está mentindo. Se o que queremos é prazer profundo, com troca entre pessoas, ele será difícil, cheio de conflitos.

Como lidar com os conflitos?

As crianças deveriam ter aulas na escola sobre frustração, para entender como ela é valiosa. Para adultos, a psicanálise ajuda, é educativa. Os adultos precisam aprender a ser adultos. A maioria age como adolescente, não quer crescer, acredita em fórmulas mágicas de relacionamento.

A fórmula 'feliz para sempre'?

Claro, é um ideal enganoso. Assim como achar que a pessoa que não se prende a ninguém é livre. São dois ideais igualmente enganadores.

A monogamia não é também uma forma de evitar riscos?

Pode ser. Correr riscos é muito importante, mas não devemos pressupor que todos os riscos estão na infidelidade. Fidelidade é tão arriscada quanto traição, há muitos riscos na monogamia.

Quais são eles?

Numa relação monogâmica, cada parceiro sabe e não sabe muitas coisas íntimas sobre o outro. Outro risco é descobrir as limitações do relacionamento humano, o quanto a outra pessoa pode de fato fazer por você. E há o risco de formar uma família.

Por que não considerar esses riscos tão atraentes quanto os riscos da traição?

Não fomos capazes de produzir relatos excitantes sobre a monogamia. Os bons romances são sobre adultério. Por isso, é difícil articular de forma interessante os prazeres da monogamia. Fica parecendo algo tedioso. Além disso, fomos educados para acreditar que a vitalidade está na heresia. Mas pode haver vitalidade nos dois tipos de relacionamento. O ocidental moderno e culto assume que a vitalidade esta só na heresia. Também está, mas essa não é toda a verdade.

Do que precisamos, afinal?

De boas histórias que nos ajudem a viver. As únicas verdades úteis são as que nos ajudam a viver. Num relacionamento, o que você precisa é criar uma história na qual se sinta vivo com a outra pessoa.

Hoje, temos mais opções para criar essa história?

Não sei. A cultura liberal oferece mais escolhas do que havia antes. Mas o capitalismo cria a ilusão de que temos muitas escolhas, quando na verdade temos muito poucas.

A única escolha é ser feliz ou não. É isso que está sendo vendido como o único programa: quanto prazer você pode ter, quão feliz pode ser. Só que felicidade pode ser como uma droga, nunca satisfaz, você quer sempre mais. Há coisas muito mais importantes que a felicidade: justiça, generosidade, gentileza.

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1013893-ser-fiel-e-tao-arriscado-quanto-trair-diz-psicanalista.shtml


mercredi 23 novembre 2011

A escalada da insanidade coletiva


Uma mídia perniciosa que passa de forma coordenada, repetida e pragmática a imagem de que todos os políticos do governo federal são incapazes e corruptos. Movimentos de “contestação” incentivados por essa mídia, com aparência de progressistas. mas que revelam as instâncias mais conservadoras da sociedade. Uma oposição conservadora alinhada com a mídia, com vontade de conquistar o poder a qualquer custo. E o ódio político levado ao ponto extremo de se desejar abertamente a morte dos opositores.

Poderíamos estar falando da política brasileira atual. E de fato estamos, em certa medida. Mas esse cenário representa dois momentos próximos entre si, na história do país, que servem como um enorme alerta a todos nós: o cenário do parágrafo de cima representa o mês de agosto de 1954, às vésperas do suicídio de Getúlio Vargas, e o mês de março de 1964, ás vésperas do golpe militar.

Em 1954, em seu terceiro mandato, Getúlio Vargas sofria pressões quase insuportáveis da imprensa, comandadas por um dos principais expoentes da oposição: Carlos Lacerda, da ultraconservadora UDN (União Democrática Nacional). Já naquela época, os partidos tinham nomes que não representavam absolutamente nada.

A oposição lacerdista chegou ao ponto, em 1954, de forjar um atentado a Carlos Lacerda, assassinando um oficial da aeronáutica, e colocar a culpa na guarda presidencial de Getúlio Vargas. Mas Vargas (que, diga-se, não era nenhum santo e tinha inúmeros defeitos) surpreendeu a todos, suicidando-se. E o seu suicídio segurou a escalada da insanidade coletiva, patrocinada pela mídia e pelos partidos conservadores, por mais dez anos, dando espaço para o governo de Juscelino Kubitschek e para o malfadado governo de Jânio Quadros.

Quando João Goulart assumiu, em 1961, após a ridícula renúncia de Jânio Quadros, o cenário se assemelhava ao das vésperas da morte de Getúlio Vargas. Agravava a situação, ainda, a escalada da luta contra o comunismo no cenário internacional, que fomentava o imperialismo e a política intervencionista norte-americana, especialmente na América Latina. Os EUA ainda estavam rescaldados com o alinhamento de Cuba com os inimigos soviéticos, e não admitiriam que outro país latino-americano tomasse destino semelhante. A Operação Condor patrocinou ditaduras no Chile (que chegou a ter o presidente socialista Salvador Allende), na Argentina, no Uruguai e no Brasil, dentre outros países da América Latina. E João Goulart, trabalhista que gozava de grande popularidade entre os trabalhadores, foi vítima deste contexto histórico.

Os ânimos políticos estavam acirrados ao extremo. Grupos conservadores organizavam-se e formavam eventos como a “Marcha pela Família com Deus pela Liberdade”, que, ao contrário de incentivar a liberdade, jogaram o Estado democrático brasileiro para um dos períodos mais negros de sua história. Uma ditadura de 21 anos que têm sido relembrada e colocada como “revolucionária” por parte da mídia atual.

Não por acaso. Quando você percebe que parte da mídia e das pessoas começa a se manifestar abertamente a favor de um período obscuro e triste da história nacional, e encontra eco em setores da sociedade, é sinal que estamos novamente em uma escalada de insanidade coletiva. Quando um sujeito da principal rede de televisão do país fala em rede nacional que “bom mesmo era na época da ditadura”, como fez Alexandre Garcia no Bom Dia Brasil, da Rede Globo, na última quinta-feira, e encontra eco em várias pessoas, é sinal de que precisamos parar e repensar nossa postura política com urgência.

Mais grave que isso é a absoluta desvalorização da vida humana, principalmente quando aplicada aos políticos. Nesse sábado, o ex-presidente Lula foi diagnosticado com um Câncer de Laringe. Tratável, é verdade, mas grave. Em meio às muitas manifestações afetuosas e de torcida pelo presidente, porém, vimos muitas manifestações comemorando a doença e torcendo pela morte do ex-presidente. Muitas delas, inclusive, de militantes dos partidos de oposição. Quando seu ódio político faz você desejar a morte de alguém, e sinal de que você não entende nada de política. Nem da vida. É sinal de que você está completamente cego.

E isso não é algo novo. Programas de humor na TV fazem piada constantemente, desejando a morte de políticos como o ex-presidente José Sarney, dentre outros. Indiferente às posturas políticas do mesmo, que devem ser discutidas em outra oportunidade, uma coisa é verdadeira e merece menção: a vida humana deve ser mais valorizada do que qualquer postura política, e a política está subordinada à dignidade humana, não podendo jamais transcendê-la. Todas as vezes em que isso ocorreu, na história da humanidade, ocorreram guerras, conflitos e genocídios. A política é a arena das ideias, das propostas e dos debates. Jamais esse direito deve ser privado de alguém, em hipótese alguma.

Não estou denunciando nenhum “esquema golpista” da parte de ninguém. Meu alerta é um só: a história é cíclica, e o Brasil, historicamente, alternou ciclos, na República, de liberdade e repressão.

Ilustrando:

1889 – 1894: República da Espada, política centralizada e de repressão, com a Revolução Federalista e a Revolta da Armada.

1895-1930: República do café-com-leite, com um pacto oligárquico entre SP e MG e a realização de eleições para presidente.

1930-1945: República de Vargas, centralizada em torno do presidente, com restrição das liberdades civis e forte repressão às Intentonas Comunista e Integralista.

1946-1964: período de uma conturbada democracia, em que foram eleitos quatro presidentes e só dois completaram seus mandatos.

1964-1985: ditadura militar, com forte repressão e constantes violações aos direitos humanos, além do combate a grupos armados

1985-2011: período democrático, com seis eleições diretas, quatro presidentes eleitos democraticamente, dois reeleitos e um deposto por corrupção.

Percebam: os ciclos de repressão e liberdade se alternam repetidamente. E, obviamente, a liberdade é um valor bem mais caro a todos nós do que a repressão.

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repetí-la”. Esta frase, atribuída a Ernesto Che Guevara e atualmente popularizada em uma série de comerciais do History Channel, mostra-se verdadeira de uma forma assustadora. E traz o caminho para não repetirmos os erros do passado: a educação, a cultura. Um povo deve se conhecer, forjar sua própria identidade, envergonhar-se e orgulhar-se dos diversos momentos de sua história e não acreditar sem contestação em frases dogmáticas.

A História de um povo está em constante transformação. E a transformação do povo brasileiro, no momento, é não deixar a atual escalada de insanidade coletiva, que se avizinha novamente, produzir os mesmos efeitos perniciosos e 1954 e 1964. Para isso é necessário um chamado à razão, aos valores democráticos, à valorização da educação como ente transformador da sociedade e o amadurecimento político geral da nação, com a discussão saudável e construtiva de ideias de parte a parte.

Chega de revolta, chega de revanchismo. Vamos voltar à razão. O Brasil não precisa de mais um período de obscurantismo e repressão. Aprender com os erros do passado é a melhor forma de tornar nosso futuro melhor.

A fala do locutor do History Channel termina assim, em todos os comerciais da série: “Se você não quer que os próximos 500 anos sejam iguais aos 500 anos que passaram, reflita”.

Eu só posso concordar com ele.

http://politicasantoandre.wordpress.com/2011/10/30/a-escalada-da-insanidade-coletiva/